Em Busca do Norte Perdido - Jose Maria Neves

  • 29/07/2018 09:39

 

Diz o Primeiro Ministro, em sede do debate parlamentar sobre o estado da nação, que o Governo de Cabo Verde já escolheu os Estados Unidos da América como nosso principal aliado nos domínios da Defesa e da Segurança.

Até aqui defendemos o multilateralismo, a paz e a resolução pacífica dos conflitos. Não admitimos a presença de bases militares e construímos relações de amizade e de cooperação com todos os países do mundo, na base do respeito mútuo e da não ingerência nos assuntos internos. As nossas relações externas são amplas e diversificadas e somos um país útil e credível na arena internacional.

No domínio da defesa e da segurança, temos relações privilegiadas com a União Europeia - um dos mais importantes pilares da Parceria Especial é precisamente a segurança e estabilidade -, com Angola, Espanha, Portugal, Grã Bretanha, Estados Unidos, China, França, Brasil...

Não entendi muito bem essa asserção do Senhor Primeiro Ministro, já porque a questão não foi debatida, já porque o mesmo não se deteve em detalhes, para explicar os meandros desta mais que significativa mudança na nossa política externa.

E as perguntas que não se calam são estas: que razões estão por detrás desta escolha? Que objetivos estratégicos pretende Cabo Verde atingir?

Na minha humilde opinião, nesta matéria tão complexa dever-se-ia suscitar o mais amplo consenso entre todas as forças políticas, a sociedade civil e os órgãos de soberania.

Por outro lado, considero, neste mundo globalizado, de mudanças rápidas e de grande volatilidade e ambiguidade ambientais, que para um pequeno estado insular que nem o nosso são essenciais os princípios do multilateralismo, da diversificação das relações, da defesa intransigente da paz e da solução negociada dos conflitos.

Devemos reforçar as nossas relações com o Senegal, Mauritânia, Marrocos, Angola e África do Sul, consolidar a nossa participação na ZOPACAS (Zona de Paz e Cooperação para o Atlântico Sul), estabelecer uma Parceria Especial com a Mercosul e, através do Brasil e da África do Sul, aproximarmo-nos dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e South África).

A União Europeia, os Estados Unidos, a China, o Japão, a Singapura, a Correia do Sul - estive em todos esses países e instituições, a exceção da Correia do Sul, e assinamos importantes acordos de cooperação, ao mais alto nível - e os países árabes devem continuar a ser nossos parceiros privilegiados.

Nesta matéria das relações externas devemos continuar na linha dos grandes consensos, com serenidade e inteligência, como temos sabido fazer até aqui com muito sucesso.