“Eu esperava mais da literatura cabo-verdiana” - José Eduardo Agualusa

  • 12/11/2017 06:00

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade de Huambo, em Angola. Estudou Agronomia e Silvicultura. De ascendência portuguesa a brasileira, foi jornalista e editor. Seus romances já renderam prémios nacionais e internacionais.
Sobre a literatura cabo-verdiana, o autor diz que esperava um progresso mais acentuado como aconteceu a nível da música, por exemplo.

Quando é que descobriu, em si, o gosto pela escrita, decidindo: “tenho mesmo de escrever”?
Eu acho que a gente acaba escrevendo por causa da leitura. O escritor é sempre um grande leitor. Eu me lembro perfeitamente qual autor é que me empurrou para a escrita. Foi Eça De Queirós. Eu li Os Maias, quando tinha 17 ou 18 anos e fiquei completamente arrebatado pelo Eça e assim fui ler toda sua obra. A partir daí, comecei a escrever. Nasceu aquela vontade e comecei a escrever nessa altura.

Então, se tivesse que apontar um autor que admira e que o inspira seria o Eça de Queirós?
Seria!

Como é que se sentiu quando terminou de escrever o seu primeiro livro? Qual foi a sensação de vê-lo pronto?
O primeiro livro é sempre uma emoção muito grande. A gente não a repete com os outros livros. Aquela emoção inicial de ver o livro editado, de ver a cara do livro é incrível. Inclusive, eu na altura lembro-me que quando o livro saiu eu achava a capa muito bonita. Fiquei maravilhado. E hoje, eu acho que é uma capa muito feia. Mas, quando você tem um filho, você acha o filho lindo. As pessoas à volta percebem que a criança não é nada bonita mas, você a vê como a criança mais linda do mundo. E aconteceu isso com o meu primeiro livro. Foi uma emoção muito grande e que não se repetiu com os outros.

Já que começou a escrever ainda na juventude, o que é que um jovem precisa para ser um bom escritor?
Precisa de ler. Precisa de ler muito. Um escritor é, em primeiro lugar, um grande leitor. Atrás de cada livro há milhares de outros livros. A cada novo livro que escrevo tenho que ler muitos outros. Costumo dizer que cada livro gera uma pequena biblioteca. Na minha biblioteca, há uma prateleira grande que tem a ver com cada livro que eu escrevi. 
Por exemplo, tenho um romance sobre a rainha Ginga, que é uma personagem incrível da história da África, não apenas da história da Angola, mas da história da África e do mundo. Então, para conseguir escrever esse livro, que é um romance histórico, ambientado no séc. XVII, eu tive de ler muita coisa sobre a rainha Ginga, sobre como era viver no séc. XVII, etc. Tive que comprar muitos livros, que fizeram a prateleira que tenho, hoje, sobre “A Rainha Ginga”. Portanto, sim, a primeira coisa que se tem de fazer é ler muito.

Já que foi jornalista, pegando naquela questão de “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”, no caso de um jornalista escritor, quem é que nasce primeiro? O jornalista ou o escritor?
Eu acho que são dois ofícios muito ligados, que lidam com a palavra. O escritor começa onde o jornalista acaba, porque o jornalista tem que ficar preso à verdade dos factos, só pode escrever aquilo que consegue provar que aconteceu. O escritor começa na fase seguinte, que é quando diz: “se tivesse sido assim”…”se tivesse sido de outra maneira”…”se as pessoas tivessem asas”, aí começa o escritor.
São actividades, de certa maneira, complementares. Eu aprendi muito como jornalista. Aprendi a ser escritor como jornalista, aprendi a aproximar-me das pessoas, a conversar, a extrair informações, a ser um pouco conciso mas, ao mesmo tempo, são actividades muito diferentes. Por isso, o escritor começa onde o jornalista acaba.

Qual é o segredo para se ter sucesso no mundo literário?
Não sei se existe um segredo. Eu acho que a paixão. Nós devemos fazer o que quer que seja por paixão. Um livro só pode ser escrito por paixão. Temos que estar muito apaixonados por aquilo que fazemos porque um livro pode demorar muito tempo. Um romance pode demorar um ano ou dois a ser escrito e tem que ser escrito em estado de paixão.
Se nós nos divertimos enquanto escrevemos, ainda que o livro não dê certo, já ganhamos. Aprendemos coisas novas. Eu escrevo porque me divirto a escrever, me surpreendo enquanto escrevo, descubro coisas que não sabia. É quase como um jogo e o mais interessante, pra mim, é ver como as estórias se vão ligando umas às outras. É um processo mágico que me continua a fascinar esses anos todos.

Falando em paixões, quais são as suas paixões ou preferência literárias?
Acho que desde o início tive uma grande paixão por um conjunto de autores latino-americanos, desde o Garcia Márquez ao Jorge Luís Borges - até tenho um livro em homenagem ao Borges que é “O Vendedor de Passados” -, o Eça De Queirós e, de uma forma geral, a poesia. Eu sou um grande leitor de poesias, sou um ficcionista, preciso ler muita poesia enquanto escrevo.

Se fosse indicar um livro seu a um leitor, qual seria?
Isso é muito difícil, porque cada livro me lembra situações diferentes e os livros são muito diferentes entre si. Tenho romances de viagens como “As Mulheres do Meu Pai”, mas, também, tenho romances históricos. Se a pessoa me disser que gosta de romance histórico, talvez indicasse “A Rainha Ginga”; se preferisse romances de viagens, indicaria “As Mulheres do Meu Pai”.

O que é que pensa da literatura cabo-verdiana?
Penso que a literatura cabo-verdiana prometia mais do que aquilo que acabou dando. Só isso. Quando a gente olha para o passado da literatura cabo-verdiana, para os escritores que existiam no séc. XX, era de se presumir que tivessem surgido mais escritores após a independência. Ainda por cima, num país com grande vitalidade cultural, um país com uma democracia avançadíssima, que é lição não só para a África mas para o mundo, com uma cultura popular tão rica, que se exprime muito através da música. Eu esperava mais da literatura cabo-verdiana.
Acho que o que temos de pensar é: porque é que a literatura cabo-verdiana não se desenvolveu tanto quanto a música? Eu penso que é porque não se conseguiu levar o livro a todos os cabo-verdianos. Cabo Verde tem uma cultura musical forte. É fácil entrar em casa de alguém e ver que sempre tem um violão, sempre tem alguém que toca. Mas, normalmente não têm livros. Enquanto não houver livros em todas as casas de Cabo Verde, não vamos conseguir desenvolver a literatura. Eu acho que o grande desafio de Cabo Verde é levar o livro a todas as famílias.

 

Entrevista por: Evelise Raven Carvalho