Jovem bengalêsa denuncia “forma horrível” como foi tratada em Cabo Verde por agentes da Emigração e Fronteiras

  • 06/08/2019 09:50


“NÃO VÁ PARA LÁ ... 
NÃO É PAÍS PARA CIDADÃO DO TERCEIRO MUNDO “ 
Maliha Fairooz só tem 28 anos mas já viajou por mais de 84 países com passaporte do Bangladesh sua terra natal e ela tem um blog onde partilha sua experiencia de viagem como bengalêsa e como mulher muçulmana viajando sozinha pelo mundo. É através desse blog que num extenso artigo denuncia a forma ‘horrível’ como foi tratada pelos serviços de Fronteira e Emigração num dos aeroportos de Cabo Verde quando chegava de Dakar. 

Como bengalêsa e viajante assídua Maliha diz que já foi maltratada em vários países europeus de maioria branca, mas que pela primeira vez na sua vida ficou pasmada pela forma horrível como foi tratada nuns pais da África Ocidental. E explica : 

“África Ocidental é conhecida pela sua hospitalidade e em todos os Estados da CEDEAO por onde passei fui recebida de braços abertos. O meu plano era ficar 4 dias em Cabo Verde e depois rumar para a Alemanha via Portugal para assistir a um casamento. Paguei dois dias antes pelo meu visto e pela taxa aeroportuária e esperava na fila com meu cartão de vacina contra febre-amarela, passaporte, visto e reservas em 2 hotéis assim como a reserva de voo para sair do país”. 

MARCADA PARA SER DEPORTADA 
Apesar de ter todos os documentos em ordem Maliha diz que ela e mais dois liberianos que estavam na fila foram interpelados por dois agentes dos serviços de imigração por motivos de “segurança protocolar”. Foi então que terá começado seu calvário :

“A chefe (chamemos-lhe Zara) a chefe chegou e então começou a me interrogar. Mostrei-lhe todos os meus papéis. Ela queria saber porqué eu estava aí, respondi-lhe que era viagem de turismo. Ela desapareceu e voltou 15 minutos depois, pedindo-me para eu recolher minhas bagagens. Tendo vivido a mesma experiencia na Macedónia, sabia que isso significava que iam me deportar. Mandei um texto para minha família pedindo ajuda mas a essa hora estavam dormindo. Por volta da meia noite eu e os dois outros homens fomos informados de que seríamos enviados de volta para o Senegal. Implorei em vão para que me deixassem viajar para a Europa para onde tinha documentos em ordem, enquanto que para Senegal ja não tinha mais visto de entrada “ 

THIS IS NO COUNTRY FOR BLACK PEOPLE 
“Por essa altura chegaram um Nigeriano e um Maliano que aterraram no Air Marrocos. Nesse ponto comecei a ver o padrão : estavam detendo somente os passageiros de cor. No meu próprio voo havia brancos viajando sozinhos mas nenhum deles foi detido. 

Eles nos detiveram sem clarificar porqué é que iam nos deportar. Aos liberianos foi –lhes dito que era por falta de alguma papelada. Cidadãos da CEDEAO , por lei, tem entrada livre por uma estadia de 90 dias. Por volta das 3 da madrugada nos separaram dos nossos pertences e fecharam-nos em dois quartos separados . Por minha segurança a porta do quarto dos homens estava trancada.O s quartos não tinham luz natural e os muros estavam cobertos de mensagens de anteriores detidos onde se lia : 

“ Cape Verdeans will not be happy in this land “ ( Cabo-verdianos não serão felizes nessa terra) 
“ This is no Country for Black People “ ( Este Não é um País para Negros) e muitas outras mensagens em diferentes línguas descrevendo a emoção daqueles que ali foram fechados.” 

UM DIA DE PESADELO 
Mahila conta depois toda a experiencia vivida nessa “cela” em Cabo Verde, suando frio de cada vez que acordava quando um outro detido claustrofóbico gritava e batia na porta, a recusa do seu pedido de sair para apanhar ar ou mesmo para fazer chichi, a intransigência dos agentes, etc. etc. Finalmente lhe deram 10 minutos para estar ao telefone e foi dessa forma que conseguiu contactar sua mãe que trabalha no Sudão como executiva da UNICEF. 

PRESSÃO DAS NAÇÕES UNIDAS 
“Minha mãe, como qualquer outra mãe nessa situação, mobilizou toda a representação da UNICEF em Dacar e a representação local das Nações Unidas para saber o que estava passando e foi assim que pela primeira vez a Emigração de Cabo Verde decidiu ver o meu caso a luz dos factos e não com base racial baseada tão-somente no meu perfil de bengalesa viajando como passageira “solo”... Toda a situação escalou ate ao nível do ministro cabo-verdiano dos negócios estrangeiros e foi então que eu dei conta do ultimo grau do meu privilegio” 
As 3.45 da tarde Mahila recebeu finalmente a noticia de que não mais seria deportada e que alguém lá fora a aguardava. Duas horas depois era permitida sua entrada em Cabo Verde onde permaneceu dois dias “a maior parte do tempo a dormir para se recuperar do sono perdido”.

QUEBRANDO ESTEREÓTIPOS... 
“Para Zala fui só uma estatística. Eu era uma mulher bengalesa a fazer alguma coisa ilegal no seu pai, mesmo se esse julgamento fosse infundado. Este é o problema de catalogar pessoas com base na raça, na religião ou na nacionalidade... A única forma de avançar no mundo sem perpetuar estes dolorosos estereótipos é realmente quebra-los no seu dia-a-dia, pensando fora do condicionalismo dos média e ver pessoas como seres humanos. Todos temos um papel nisso e tal como contribuímos para esses preconceitos também temos o poder de quebra-los e contribuir para um mundo mais justo “