O Avanço do Populismo - Por Jose Maria Neves

  • 30/10/2018 11:43

 

As eleições norte-americanas, húngaras, francesas, austríacas, alemãs, italianas... tinham dado o sinal de alerta. A democracia está em crise e forças extremistas, populistas, demagógicas e autocráticas estão a ganhar terreno e a conquistar o poder.

A corrupção, o desemprego, as desigualdades, a violência e a insegurança, a instabilidade política, social e económica e a incapacidade dos governos, de direita ou de esquerda, em responder, no plano da governança nacional, aos principais desafios da globalização, conduziram ao cansaço das instituições, máxime dos partidos, e, conseguintemente, ao desalento e à desconfiança sobre a capacidade dos partidos e dos políticos em governar e em responder aos anseios e às expectativas dos cidadãos e da sociedade.

Por outro lado, as redes sociais espartilham as fronteiras político-partidárias e abrem espaços alternativos a indivíduos e a grupos pequenos, fragmentados e extremistas. Já não são precisos os grandes e tradicionais meios de comunicação social, estas aliás também em crise, para implementarem as suas estratégias e fazerem passar as suas ideias. Ideias simples, demagógicas e populistas. São anti-sistema, representam o povo e pretendem em seu nome combater a corrupção e a violência, e devolver a ordem, a grandeza e a glória a todos, mesmo que para isso tenham que atropelar os direitos civis e políticos, desconsiderar as minorias e fechar as fronteiras aos “invasores” imigrantes.

O povo, em ato de desespero, já não tem por onde pegar. Sente-se invadido por um mar de problemas, desempregado e desiludido face ao não cumprimento, durante dezenas de anos, das promessas da democracia e do governo, escolhe o primeiro que lhe aparece à frente e lhe garante a salvação.

A vitória do Bolsonaro, no Brasil, não me espanta, pois! Vem na sequência das outras. As ideias, as estratégias, os discursos são os mesmos. Preparemo-nos para as próximas vitórias, em outros países, lá onde as coisas já estão amadurecidas (ou apodrecidas) para o sucesso do populismo e da democracia iliberal.

As forças democráticas e progressistas devem por-se a pau! Os tempos são graves, de reflexão, de reformulação e de profundas inovações políticas e institucionais, sob pena das forças extremistas, nacionalistas, autocráticas e regressivas tomarem conta, por muito tempo, do mundo, com consequências ainda imprevisíveis.

Eu estarei sempre do lado das liberdades, da democracia e do progresso.

Os partidos e os políticos cabo-verdianos têm enormes desafios pela frente e muito trabalho de casa por fazer. Estarão à altura do chamamento? A ver vamos!

 

Jose Maria Neves