TRISTE REGRESSO! - Poema de Eugenio Tavares

  • 02/10/2017 00:00

TRISTE REGRESSO!

Dentro da claridade plúmbea da manhã
A Ilha, sobre o mar, lembra uma catedral.
As nuvens em silêncio emergem devagar 
Qual um fumear de incenso,
Num ascetismo intenso.
Num perfume subtil de velha fé cristã,
Pelas naves glaciais da brônzea catedral,
A Ilha, sobre o mar.

E sobem vagamente em lágrimas banhando
A dura fronte augusta e grave dos rochedos.
Bebe em fundo silêncio a terra fulva, adusta,
A lágrima que cai;
E a nuvem passa, vai,
Numa insondável mágua imensa rorejando
Em gélido suor, dos túrbidos rochedos 
A dura fronte augusta.

Mas, já da opa cinzenta a Ilha se desnuda,
Beija-a com fúria o sol; dentes de fogo a comem,
O vento reduziu-lhe a trapos o lençol.
Emerge, e se acentua,
Do mar, imóvel, nua,
Transida de tristeza, em uma angústia muda…
E enquanto ao longe as nuvens álgidas se somem 
Beija-a com fúria o sol.

Da c’roa do plató á fímbria da devesa 
As árvores sem vida estorcem-se de sede.
E o sol - bem como um rei fanático, homicida - 
Fustiga-as a matar 
E ri-se ao incendiar
Os ramos - como mão erguidas de quem reza - 
E as folhas - como mãos abertas de quem pede - 
Das árvores sem vida.

Enfim, o meu Navio, aos poucos se aproxima.
Nos tristes olhos meus, em lágrimas, rebrilha 
A dita de ancorar após mil escarcéus.
E, pois que as nuvens vão
Fugindo na amplidão
Sem que uma gota de água enviem lá de cima,
Darei à tua sede o pranto - ó minha Ilha! - 
Dos tristes olhos meus.

EUGÉNIO TAVARES