Luxemburgo: Pela primeira vez, ouviu-se crioulo no Parlamento do Grão-Ducado

Fez-se história! Pela primeira vez falou-se crioulo na Câmara dos Deputados. Aconteceu na tomada de posse da primeira parlamentar cabo-verdiana, Ana Correia da Veiga. E, logo no início deixou claro ao que ia: “Nu ka larga Cabo Verde pa imigra pa Luxemburgo, pa nu indura kel friu ti dentu di tripa, pa nhas fidjus limpa toilette tras di kel bekeng” — disse a deputada do Déi Lénk (A Esquerda), que é também a primeira mulher negra a entrar no Parlamento do Grão-Ducado.

Oct 15, 2026 - 17:20
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Luxemburgo: Pela primeira vez, ouviu-se crioulo no Parlamento do Grão-Ducado

É um facto histórico de grande relevância para a Nação global cabo-verdiana. Ao tomar posse como deputada no Parlamento do Luxemburgo, Ana Correia da Veiga falou em crioulo. Aconteceu nesta quarta-feira, 14. Embora discursando em luxemburguês, a parlamentar do Déi Lénk (A Esquerda) — um partido socialista democrático — usou o crioulo para homenagear a mãe e as palavras que assinalaram a sua caminhada pessoal, estimulando-a a estudar, mas também a lutar pelos seus direitos e dos demais.

“Nu ka larga Cabo Verde pa imigra pa Luxemburgo, pa nu indura kel friu ti dentu di tripa, pa nhas fidjus limpa toilette tras di kel bekeng” (Não deixámos Cabo Verde para emigrar para o Luxemburgo para passarmos frio até às entranhas e para os nossos filhos limparem casas de banho). Uma frase que se tornou numa referência do seu percurso e da luta por igualdade de direitos e melhores condições de vida para os imigrantes.  

“A minha mãe, que passou toda a vida a correr de um lado para o outro da cidade, de manhã, à tarde e à noite, para fazer limpezas, ensinou-nos desde muito cedo que o fracasso não era uma opção”, disse a deputada do Déi Lénk, referindo o facto de a sociedade luxemburguesa continuar a fixar o seu olhar depreciativo nos trabalhadores e trabalhadoras imigrantes

Ana Correia da Veiga falou com orgulho dos seus pais que, segundo avançou, “tinham plena consciência da sua posição social”, mas nunca se envergonharam do seu contributo — e revisitou a história da imigração cabo-verdiana no Grão-Ducado, destacando que, enquanto parlamentar, pretende dedicar particular atenção à educação.

Considerando que o mérito é apenas uma parte do sucesso, a deputada cabo-verdiana salientou “Se nasceste rapaz, a tua língua materna é o luxemburguês, os teus pais têm o diploma do ensino superior, não tens preocupações financeiras e tens o apelido certo, então tiveste sorte na lotaria escolar”, ironizou.

Ana Correia da Veiga falou, ainda, do seu trajeto académico. “Se quiserem avaliar-me pelos meus resultados escolares, encontrar-me-ão, no relatório sobre a educação, na categoria dos alunos que abandonaram a escola precocemente. Não uma, mas duas vezes”, sublinhou, enaltecendo o trabalho dos professores e manifestando gratidão pela “atenção e dedicação” que dedicaram aos alunos.

A deputada do Déi Lénk, de 43 anos, nasceu no Luxemburgo e é filha de cabo-verdianos que emigraram na década de setenta para aquele país. Para além de possuir formação profissional na área da educação, Ana Correia da Veiga tem experiência no teatro e um trajeto cívico de intervenção social e política, sendo que, em 2021, já se havia tornado a primeira mulher de origem cabo-verdiana e negra a integrar o Conselho Comunal da Cidade do Luxemburgo.

Fonte: Contacto
Foto: © Créditos: Marc Wilwert / Mediahuis Luxembourg