Aquele dia 5 de janeiro era, sem dúvida, o momento mais aguardado do calendário. Não era apenas pela tradição de sair pelas aldeias de porta em porta a desejar "Boas Festas"; era, acima de tudo, pela oportunidade. Enquanto as outras crianças viam aquilo apenas como folclore, eu via uma verdadeira missão. O desejo de boas festas era genuíno, claro, mas era movido por um objetivo maior: o dinheiro que iríamos ganhar.
Eu tinha a minha equipa de elite formada: eu, o meu fiel escudeiro e irmão Edson, e a nossa vizinha Mónica. Trajados a rigor, parecíamos três reis magos prontos para conquistar a vizinhança e, depois, alargar o território para outras localidades. Mas o meu instinto de empreendedor dizia-me que, para ganhar bem, tínhamos de ser diferentes. Enquanto a concorrência se esgoelava a cantar sempre o mesmo clássico "Nho San José", nós inovávamos. Levávamos instrumentos — uma gaita ou um pequeno acordeão — e um repertório diferenciado. Era a nossa forma de garantir que a recompensa seria maior.
Naquela época, a moeda de troca habitual era receber doces ou a famosa "Mustura" (pães, bolos ou bolachas). Dinheiro havia, mas não tanto. Só que a nossa "empresa" tinha uma política estrita: a prioridade era o vil metal, embora recusássemos a comida com a maior educação possível (na maioria das vezes).
Lembro-me, como se fosse hoje, da visita à casa da saudosa Nha Quina. Uma senhora de uma simpatia imensa, que nos recebeu com um sorriso e, no final da cantiga, nos ofereceu um belo pedaço de Gufongo. Aquele cheiro de milho e canela... Mas nós queríamos moedas! Só que a amabilidade dela e o respeito pela sua idade impediram-nos de fazer a desfeita na sua frente. Aceitámos.
Mas mal ela fechou a porta... (Mónica, minha querida, perdoa-me por quebrar a nossa promessa de sigilo): demos uns passos até ficar fora de vista e, num gesto de pura traquinice, a Mónica voltou e jogou o Gufongo por cima do batente do portão. Saímos a correr, rindo. Na altura não tínhamos noção, mas hoje, confesso, sinto um amargo arrependimento. Que Deus perdoe a nossa ingratidão de crianças.
A lição, porém, não foi aprendida de imediato.
Logo a seguir, chegámos à casa do Professor Vavá (hoje Pastor). Depois da serenata, ele apareceu com uma fatia de bolo, com toda a bondade do mundo. Desta vez, fomos implacáveis. Recusámos. Ele insistiu, elogiando o bolo. E nós, com a lata que só as crianças têm, soltámos a mentira piedosa:
— "Desculpe, mas a nossa mãe disse para aceitarmos somente dinheiro."
O homem ficou sem jeito e não teve outra remissão senão ir procurar uma moeda para nos dar. Vitória da nossa estratégia!
A noite seguia numa correria desenfreada, com cada grupo a tentar ganhar o máximo possível. O ponto alto era a residência paroquial. O Padre Mário esperava à janela com a sua famosa caixa de moedas para presentear a cada um. Havia sempre os "espertinhos" que tentavam dar a volta e cantar duas vezes, mas o Padre tinha olho de águia, notava logo e não deixava passar.
Quando o cansaço batia e as pernas pesavam, recorríamos ao velho truque: abandonávamos o repertório chique e atacávamos com a música rápida "Daca, daca, minino di Jesus...". Era cantar e estender a mão.
Mas a noite não podia acabar sem um susto. Chegámos à casa de uma senhora que, nas lendas da nossa meninice, tinha fama de feiticeira. Poucos tinham coragem de lá cantar, pois temiam aceitar o que ela dava.
Batemos. A demora em abrir a porta enervou-nos. Resolvemos então proferir a frase proibida: "Galinha txoca, baxo di cama...".
Mal tínhamos aberto a boca, eis que ela abre a porta! Foi uma vergonha e tanto. Tremíamos de medo. Ela repreendeu-nos (com razão), mas no fim deu-nos a nossa moeda. Saímos a correr dali como se não houvesse amanhã.
Ao chegar a casa, o ritual final: fazer as contas do "lucro". E não era pouco, pois como disse, a nossa regra de aceitar preferencialmente dinheiro rendia frutos.
Hoje, os tempos são outros. A inocência mudou, as ruas mudaram. Mas agora, somos nós que abrimos a porta. Passámos a bandeira (e a "saca") aos nossos filhos, esperando que eles se divirtam tanto quanto nós... mas, se possível, que não deitem fora o Gufongo da vizinha!