Sobre as desconcertantes mensagens contraditórias justificando a guerra com o Irão, uma coluna de Henrique Silva
Tendo-se precipitado para a guerra sem preparar a opinião pública para lhe dar apoio, a administração Trump está a esforçar-se por fornecer justificações -a posteriori- para entrar em guerra com o Irão. Quais são as verdadeiras razões para iniciar, neste momento, uma guerra com o Irão?
É muito raro ver os EUA entrar num conflito armado prolongado e de grande escala sem antes tentar "fabricar consenso" através de justificações públicas, enquadramento mediático e convenientes narrativas políticas, especialmente desde a Segunda Guerra Mundial. Embora o Congresso não tenha declarado oficialmente nenhuma guerra desde 1941, o Poder Executivo norte-americano depende fortemente da obtenção de apoio público e das forças políticas para legitimar as intervenções em países estrangeiros. De acordo com esta estratégia pós-Segunda Guerra Mundial, desde 1945 os Estados Unidos têm justificado a legitimidade da sua decisão de iniciar grandes conflitos (Coreia, Vietname, Iraque, Afeganistão) sem declarações formais, utilizando propaganda, narrativas de ameaças e justificações "urgentes" para garantir o apoio público.
O recente ataque ao Irão, no entanto, apanhou quase a todos nós de surpresa. O Presidente Trump provou mais uma vez a sua imprevisibilidade e fez jus à sua reputação de "bola de demolição" nas relações internacionais ao iniciar um grande conflito sem antes obter o consenso geral. Não é de se admirar, pois, que a indignação em relação à guerra, igualmente imprevisível, tenha vindo de um amplo espectro do panorama político norte-americano.
A administração Trump apresentou várias justificações para iniciar uma guerra com o Irão, incluindo a destruição de sistemas de mísseis, a prevenção de um programa nuclear, o desmantelamento de grupos paramilitares como o Hezbollah e o incentivo ao povo iraniano para "tomar o controlo" do seu governo. Respondendo a questões e enfrentando audiências específicas e muitas vezes em tentativas de minimizar os danos na opinião pública, o Presidente Trump, o Secretário de Estado Marco Rubio e o Secretário de Defesa Pete Hegseth têm apresentado razões díspares e até contraditórias para a guerra
Inicialmente, foi a questão do enriquecimento de urânio e do desenvolvimento da capacidade nuclear.
Seria incorreto sugerir a ideia de que o Irão estava a cumprir com o "zero enriquecimento" de urânio exigido pelos Estados Unidos nas negociações nucleares de Genebra, interrompidas pelo ataque norte-americano americano-israelita ao Irão. Segundo o jornal britânico The Guardian, cientes dos parâmetros claros estabelecidos pelas autoridades superiores em Washington, os negociadores Steve Witkoff e Jared Kushner estavam obrigados a relatar ao seu governo qualquer tentativa iraniana de obstruir os esforços para chegar a um acordo sobre a destruição das suas três principais instalações de enriquecimento nuclear em Fordow, Isfahan e Natanz -alvos da campanha de bombardeamento de Trump no ano passado- bem como sobre a entrega do seu stock de urânio enriquecido aos EUA. Segundo a essa reportagem, a decisão de entrar em guerra dependia simplesmente da avaliação pelos dois negociadores norte-americanos da medida em que os diplomatas iranianos estavam a obstruir o acordo para cumprir as exigências acima referidas. E foi exatamente isso que aconteceu, uma vez que as autoridades iranianas interpretaram o cumprimento dessas exigências como uma capitulação que arruinaria a sua própria legitimidade enquanto defensores da soberania nacional. Ao que parece, o que para os americanos representava simplesmente uma exigência técnica, era para os iranianos a violação de um princípio ideológico fundamental. Quase imediatamente após tomar conhecimento do impasse nas negociações, o Presidente Trump consultou os seus comandantes militares sobre as opções para um ataque ao Irão.
O facto de o Irão ter paralisado as negociações que levariam ao enriquecimento zero de urânio não significava, contudo, que estivesse prestes a adquirir uma arma nuclear totalmente operacional em cerca de um mês, como alegaram alguns defensores de um ataque ao Irão. Mesmo que o Irão ultrapassasse tal limite nuclear, representaria somente uma ameaça a Israel e outros aliados dos EUA no Médio Oriente e não ao território norte-americano, pois não possuiria os sistemas de lançamento necessários para atingir o solo dos EUA. Os Estados Unidos teriam razões para responder militarmente enquanto força militar garantindo a proteção dos seus aliados mas, nesse caso, as capacidades nucleares iranianas não poderiam ser vistas como uma ameaça imediata aos Estados Unidos, como se tem argumentado para legitimar um ataque norte-americano americano ao Irão.
Acontece que as autoridades norte-americanas não tinham motivos para temer um iminente ataque nuclear do Irão. A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) informou, no dia 5 de Março, que não tem provas de que o Irão tenha actualmente um programa de armas nucleares. Segundo a CBS News, apenas uma semana antes do ataque ao Irão, o próprio Marco Rubio declarou à imprensa que o Irão não estava a enriquecer urânio. Após o bombardeamento das instalações nucleares iranianas em Junho passado por Israel e pelos Estados Unidos-após o qual o Presidente Trump anunciou triunfalmente a total destruição da infra-estrutura nuclear do Irão- os stocks de urânio enriquecido do país terão permanecido enterrados sob os escombros. Desde então, o Irão tem-se limitado a reparar as suas instalações de enriquecimento de urânio danificadas, visando retomar o processo se assim julgar necessário. Esse conjunto de factos estão refletidos na Avaliação de Ameaças Globais de 2025, publicada pela Defense Intelligence Agency, que afirmou que "o Irão quase certamente não está a produzir armas nucleares, mas sim tem realizado atividades nos últimos anos que o posicionam melhor para as produzir, caso opte por fazê-lo", como relata a CBS News. Talvez estas avaliações tranquilizadoras do nível de ameaça nuclear do Irão tenham levado a administração Trump a mudar o foco para uma outra ameaça iraniana só recentemente divulgada: mísseis balísticos de longo alcance.
A nova ameaça iminente: mísseis balísticos de longo alcance capazes de atingir os EUA.
Pairando sérias dúvidas sobre um iminente ataque nuclear, um novo cenário apocalíptico foi evocado pelas autoridades norte-americanas com base no aparente perigo claro e actual de mísseis balísticos intercontinentais que o Irão estaria supostamente prestes a montar teriam a capacidade de atravessar o Oceano Atlântico e atingir os Estados Unidos. Nada mais nada menos do que o próprio enviado dos EUA para o Médio Oriente, Steve Witkoff, quem participou nas recentes negociações diplomáticas com o Irão, foi à Fox News na véspera do ataque ao Irão para relatar, com uma precisão surpreendente, que o país do Médio Oriente só precisava de uma semana para dispor de mísseis operacionais prontos para atingir o território continental dos EUA. O senhor Witkoff conseguiu ser ainda mais alarmante ao acrescentar que ao cabo de uma semana o Irão provavelmente conseguiria “material de nível industrial para o fabrico de bombas nucleares.”
Pouco tempo atrás (no ano passado), uma avaliação da Defense Intelligence Agency indicava que Teerão não seria capaz de possuir mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir os EUA até 2035. Esta conclusão, no entanto, não impediu a altos funcionários da administração Trump de dizerem aos jornalistas, poucas horas depois do início dos ataques ao Irão, que "tinham indícios" de que o Irão poderia potencialmente utilizar mísseis convencionais "preventivamente, ou, se não, simultaneamente" a quaisquer ações dos EUA contra o regime. O presidente "não ia ficar de braços cruzados à espera de ser atingido primeiro" e, se o tivesse feito, "o número de vítimas e de danos seria substancialmente maior" do que se os EUA tivessem agido preventivamente, argumentaram esses funcionários, como relata a CBS News. Numa forte refutação da teoria dos mísseis de longo alcance, o mais alto democrata na Comissão de Inteligência do Senado, o senador Mark Warner, disse à jornalista Dana Bash, da CNN, que "não viu qualquer informação de inteligência que indicasse que o Irão estivesse prestes a lançar qualquer tipo de ataque preventivo contra os Estados Unidos da América". Após um encontro com Rubio dois dias depois do início das hostilidades, Warner afirmou não acreditar que os mísseis iranianos representassem uma ameaça iminente para os EUA — embora representassem, sim, uma ameaça significativa para Israel.
O Secretário de Estado Marco Rubio e o Secretário de Defesa Pete Hagseth manipularam o argumento recentemente introduzido sobre os mísseis de longo alcance sob duas perspetivas diferentes. Hagseth articulou uma conspiração iraniana para desenvolver os mísseis como forma de ofuscar o seu programa de armas nucleares: o Irão estaria a usar o seu "crescente arsenal de mísseis balísticos e drones assassinos" como um "escudo convencional para as suas ambições de chantagem nuclear". Por outras palavras, ao mesmo tempo que o Irão mantém os norte-americanos e os israelitas sob a mira dos mísseis convencionais, concentrando totalmente a sua atenção, estaria na sombra a trabalhar para desenvolver secretamente as suas armas nucleares. Por sua vez, Rubio via a ameaça iminente de os mísseis serem utilizados para atingir os Estados Unidos, como reação esperada do Irão a um ataque preventivo aparentemente inevitável de Israel. Enquanto o argumento de Hagseth cheira a teoria de conspiração pouco fiável — do tipo que, por si só, constitui um perigo para a diplomacia convencional —, Rubio estabelece, por outro lado, uma profecia auto-realizável que bem poderia ser facilmente desativada simplesmente persuadindo o aliado próximo, Israel, a usar um pouco de moderação. Ou será que o requisito de contenção militar em nome da paz mundial recai exclusivamente sobre “Estados pária” como o Irão?
O meu palpite pessoal é que, se o Irão tivesse realmente mísseis capazes de atingir os Estados Unidos, tê-los-ia utilizado imediatamente após o ataque, antes que o intenso e presumivelmente preciso bombardeamento aéreo de Israel e dos Estados Unidos degradasse o sistema ao ponto de o tornar inoperável ou destruisses os mísseis por completo.
Será que estamos a lutar numa guerra de Israel?
A equipa de política externa de Trump tornou-se particularmente defensiva em relação à percepção de que está a travar uma guerra em prol de Israel. Isto é um anátema óbvio para os seus cálculos políticos. Por isso, quando o Secretário de Estado Marco Rubio disse aos jornalistas, no dia 2 de Março, que os EUA tinham atacado “preventivamente” porque sabiam que uma acção israelita estava prestes e que “precipitaria um ataque iraniano contra as forças norte-americanas”, provocou uma reação incendiária, obrigando Trump a desmenti-lo no dia seguinte. Trump afirmou que ele tinha ordenado os ataques porque tinha um "claro pressentimento" de que o Irão planeava desferir o primeiro golpe aos EUA, independentemente das ações de Israel. Este foi, talvez, o primeiro deslize sério de Rubio na sua defesa do ataque norte-americano ao Irão. Normalmente, é ele quem precisa apagar as as reações incendiárias causadas pelas declarações imprudentes de Trump sobre assuntos sensíveis. O senador Mark Warner, da Virgínia, é, contudo, direto na sua avaliação do factor israelita, como relata a CBS News: "Esta continua a ser uma guerra opcional, reconhecida por outros como ditada pelos objetivos e calendários de Israel".
Esta divergência entre Trump e o seu Secretário de Defesa sobre a eventualidade hipotética de Israel ou o Irão se posicionarem para realizar um ataque preventivo demonstra a falta de controlo narrativo que caracteriza os círculos internos desta administração. Como é que não conseguem concordar sobre quem era percebido como estando prestes a lançar o ataque preventivo que iniciaria o confronto militar? Ou não estão a partilhar informações militares e de segurança sensíveis — o que é difícil de acreditar —, ou não estão a coordenar as suas declarações públicas — o que pode ser o caso —, ou estão a inventar narrativas à medida que a guerra se intensifica e as consequências políticas se desenrolam, o que não é inconcebível tendo em conta as suas narrativas sempre a variar.
De acordo com a versão inglesa do jornal espanhol El País, não foi só o público em geral que recebeu informações contraditórias sobre os motivos e o momento do ataque ao Irão. Citando a Associated Press como fonte primária, o El País refere que “representantes da administração Trump informaram os funcionários do Congresso, em reuniões à porta fechada, que os serviços de inteligência dos EUA não acreditavam que o Irão estivesse a preparar ataques preventivos contra os EUA”. A confirmar-se isso, os EUA perderiam a justificação para o seu ataque preventivo contra o Irão. Segundo o El País, noutra reunião à porta fechada no Capitólio para informar importantes entidades parlamentares de ambos os partidos sobre o conflito, o Secretário de Estado Rubio apresentou uma nova versão da justificação para o ataque preventivo: os EUA acreditavam que Israel se preparava para bombardear a República Islâmica e, nesse caso, Teerão atacaria as forças americanas no Médio Oriente. O argumento de Rubio foi o seguinte: “Sabíamos que haveria uma ação israelita. Sabíamos que isso iria precipitar um ataque iraniano contra as forças norte-americanas e sabíamos que, se não os atacássemos preventivamente antes de lançarem esses ataques, sofreríamos baixas maiores”, Rubio terá dito na reunião.
Para aumentar a confusão sobre as alegadas ameaças que levaram os Estados Unidos à guerra, os objetivos e metas da intervenção militar dos Estados Unidos também têm vindo a sofrer alterações. Trump vinha ponderando a possibilidade da mudança de regime no Irão, tendo inclusivamente incitado o povo iraniano a levantar-se, a depor o atual regime do Irão e a assumir o controlo do país. Esta abordagem ficou evidente no seu pronunciamento televisivo pré-gravado anunciando o início das operações no Irão. Contudo, poucos dias depois, tornou público que estava a considerar um acordo semelhante ao que ofereceu aos líderes venezuelanos: capitular-se às exigências dos EUA e manter-se no poder. Esta mudança de objectivos para a guerra fez com que o seu Secretário de Defesa, Pete Hagseth, recuasse, constrangido, na argumentação sobre a mudança de regime apenas três dias após o início do conflito. Noutra reviravolta brusca, Trump exigiu a rendição incondicional do Irão, uma exigência radical que certamente irritará profundamente a liderança iraniana e motivará os seus soldados fanáticos a resistir e a prolongar a guerra. Segundo o jornal online The Hill, estas mudanças de posição são o resultado do facto de “Trump não ser muito inclinado a planear, pelo menos não no sentido convencional. Ele é instintivo, improvisador e altamente reativo”.
Tendo a administração Trump falhado em fornecer razões e objectivos credíveis, consistentes e coerentes para a guerra contra o Irão, resta-nos a tarefa de os encontrar. E a direção mais plausível para os encontrar reside no carácter geral da liderança de Trump. Precisamos de revisitar e analisar as tendências do Presidente Trump relativamente às relações internacionais, reveladas através do bombardeamento de embarcações suspeitas de tráfico de droga nas Caraíbas e na costa do Pacífico, da operação na Venezuela para capturar Nicolás Maduro, das suas ameaças de intervenção militar na Colômbia e no México para combater o tráfico de drogas, e também do seu interesse em adquirir a Gronelândia, quer por negociação, quer pela força. Fica, assim, claro que estamos perante um líder que deseja restaurar três doutrinas intimamente relacionadas desenvolvidas pelos Estados Unidos no século XIX: a Doutrina Monroe, o Destino Manifesto e a Diplomacia das Canhoneiras. Sim, é difícil de acreditar, mas é isso que está a acontecer com a política externa dos EUA sob a administração Trump. Considerar que tais estratégias de política externa são anacrónicas é uma questão totalmente diferente.
Mas, então, resta-nos também uma questão insistente: porque é que Donald Trump está tão empenhado em restaurar, no século XXI, doutrinas de política externa que se pensava pertencerem ao passado? A resposta a esta questão pode ser embaraçosa, mas parece estar intrinsecamente ligada à personalidade de Trump, pois as suas estratégias aparentemente anacrónicas não fazem parte de qualquer tipo de renascimento nacional ou movimento social reacionário que se possa imaginar. Estamos perante um líder que quer ficar na história reacendendo a antiga glória norte-americana e recorrendo a estratégias ultrapassadas como a expansão do território dos EUA (nomeadamente com a aquisição da Gronelândia) ou o estabelecimento de protectorados neocoloniais como o que está actualmente a ser estabelecido na Venezuela. Alertando que Trump pode estar a entrar numa nova fase da sua presidência, a da construção de um legado, o site de notícias The Hill sublinha que “historicamente, os presidentes considerados ‘grandes’ tendem a realizar algumas obras que os enaltecem: expandem o país, dedicam obras arquitetônicas impressionantes em sua homenagem, ou lideram uma guerra”. Pode-se afirmar, com segurança, que Donald Trump já experimentou todas estas abordagens. Com uma análise perspicaz do carácter do presidente, o The Hill salienta ainda que “ele é inegavelmente propenso ao simbolismo, à reputação e à estatura histórica” e pode muito bem estar envolvido em “movimentos dramáticos que ele espera garantirem o seu lugar nos livros de história”. O artigo online do The Hill deixa-nos com uma lição de cautela: “É arriscado eleger um narcisista com experiência limitada e um desejo insaciável de glória.”
Uma coluna de Henrique Silva
























