A Celebração de Nossa Senhora da Graça numa freguesia que vem perdendo a sua graça

Nossa Senhora do Monte, 15 de Agosto de 2026 (Bravanews) - Há festas que trazem no ar o perfume do mar e a tradição. Há festas que começam com foguetes às 5 da manhã e terminam com baile na polivalente até a luz do dia. A festa de Nossa Senhora da Graça, em Nossa Senhora do Monte, na Ilha Brava, era assim.

Aug 15, 2026 - 14:48
Aug 15, 2026 - 14:49
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A Celebração de Nossa Senhora da Graça numa freguesia que vem perdendo a sua graça

Celebrada todo dia 15 de Agosto, a padroeira dá nome e alma à freguesia mais alta e uma das mais antigas de Cabo Verde. Durante séculos, era o dia em que a ilha inteira subia ao monte. Vinha gente de Fajã D’Água, de Cachaço, de Vila Nova Sintra, da Furna, Mato Grande e Baleia. Barcos de São Filipe no Fogo, da Cidade da Praia na ilha de Santiago. A freguesia ficava pequena para tanta gente. 

Hoje, em 2026, a procissão ainda sai. A paróquia ainda reza missa. O altar ainda é enfeitado com flores de papel e papel crepom. Mas quem volta à festa sente: a freguesia vem perdendo a sua graça.

Nossa Senhora do Monte não é só uma freguesia. É história. É resistência. No tempo das secas, foi aqui que as famílias se refugiaram. Foi aqui que se plantou milho e se reza por chuva.

No dia 15, a igreja matriz ficava cheia às 8h. Depois da missa na paróquia local, vinha a procissão pelas ruas de calçada e terra batida. As mulheres de vestido comprido, os homens de camisa branca, as crianças obedecendo o silêncio da ocasião. Nas casas, boa comida, grogue da terra, cavaquinho e violão. À noite, baile. O bravense voltava da diáspora só para esse dia. Mandava dinheiro meses antes para "fazer a festa direito".

A graça estava nisso: na união, no regresso, na promessa cumprida. Mas nas últimas duas décadas, o cenário mudou. 

Segundo os moradores da freguesia, o abandono bateu à porta. Os jovens foram-se. Lisboa, Dorchester, Brockton, Boston, Providence, Paris, Rotterdam. As casas de pedra ficaram fechadas o ano todo. As que ficaram abertas, muitas vezes, são de idosos que já não têm força para subir as escadas da igreja.

Faltou investimento. A estrada que liga Nova Sintra a Nossa Senhora do Monte continua sinuosa e esburacada. Quando chove forte, há derrocadas. O centro de saúde funciona em horário reduzido, sem remédios essenciais, sem consultas regulares e sem o vigor de outrora. A escola básica, caindo aos pedaços, tem cada vez menos alunos. Não há hotel, não há agência bancária, não há transporte público regular, não há posto de combustível, não há correios e a Delegação Municipal continua fechada. Para comprar pão, muita gente tem que descer até à Cidade de Nova Sintra.

Sem gente, sem dinheiro, sem apoio, a festa foi encolhendo. O orçamento da festa depende de donativos e de rifas, e hoje a própria edilidade financia uma boa parte das actividades. E cada ano é mais difícil.

Mesmo assim, o dia 15 de Agosto continua sagrado.

De manhã cedo os foguetes rasgam o silêncio. A missa solene lota a igreja pequena. O padre fala da graça de Maria e da graça que falta à terra. Há quem chore. Há promessas sendo pagas.

Depois sai a procissão. Menos gente, mas com a mesma devoção. As senhoras ainda cantam as ladainhas. Os homens ainda carregam o andor com cuidado. 

Nossa Senhora do Monte sempre ocupou um lugar sagrado na alma da ilha da Brava, sendo muito mais do que uma simples freguesia no mapa cabo-verdiano. Durante décadas, este rincão abençoado pelas brisas das montanhas foi um verdadeiro pulsar de vida, cultura e fraternidade, onde a convivência fluía com naturalidade e o acolhimento era a regra sagrada do quotidiano.

Falar do passado dessa terra é invocar uma época marcada por um ritmo comunitário vibrante e por um calor humano inigualável. As calçadas e praças transbordavam conversas sinceras, mornas entoadas ao luar e uma cumplicidade entre vizinhos que transformava toda a freguesia numa grande e unida família.

Essa era de ouro foi moldada por grandes nomes que permanecem gravados na memória coletiva de todos os bravenses. Homens de fibra como Nhô Dudu, José Domingos e Nhô Raul de Pina ergueram a identidade do lugar com o seu trabalho, a sua sabedoria e um respeito profundo pelas tradições locais.

Como esquecer a presença marcante de figuras como Nhô Bebete e Nhô Álvaro, que personificavam a dignidade e o caráter do povo de Senhora di Monte. Eles caminhavam pelas ruas distribuindo conselhos, partilhando histórias e mantendo acesa a chama da convivência comunitária que tanto orgulhava a ilha.

A lista de guardiões dessa essência estende-se a personalidades inesquecíveis como José de Ramos, Ma Iva, Ana Mame Manco, Nho Pedro e Nhô Viriato, pilares de uma freguesia célebre por sua gente boa e generosa. O acto de acolher quem vinha de fora não era um gesto calculado, mas sim uma extensão da própria alma do lugar.

Com o avançar dos anos, no entanto, as marcas de uma dolorosa decadência começaram a transformar a fisionomia de Nossa Senhora do Monte. O forte êxodo migratório, impulsionado pela busca incessante por melhores oportunidades no exterior, começou a esvaziar gradualmente as residências e a afastar as novas gerações do seu solo natal.

Aos poucos, a vivacidade habitual deu lugar a um silêncio pesado e melancólico. Muros que outrora ecoavam risos, festas e cantorias hoje testemunham portas fechadas de casarões históricos, onde o tempo parece ter desacelerado para guardar o eco de uma prosperidade que ficou na memória.

Com o inevitável passar dos anos e a partida das grandes figuras que davam vida à comunidade, o vazio tornou-se ainda mais evidente. A ausência desses líderes comunitários e contadores de histórias deixou um hiato cultural e social que a modernidade dificilmente consegue preencher com o mesmo brilho.

A sensação de decadência que hoje se reflete na perda do dinamismo de outrora não apaga, contudo, a nobreza da sua trajetória. A nostalgia tornou-se uma companheira constante dos que permaneceram, nutrindo a lembrança dos dias em que a freguesia era o ponto mais radiante da ilha da Brava.

Mesmo diante das transformações trazidas pelo tempo e do relativo esvaziamento, a essência de Nossa Senhora do Monte recusa-se a apagar. O verdadeiro patrimônio dessa terra continua vivo na memória do seu povo e na esperança de que o legado dessa gente tão acolhedora continue a inspirar todos os que carinhosamente guardam o seu nome no coração.