António Varela lança duro apelo aos emigrantes, “A caridade não começa na carteira dos outros, começa no nosso próprio coração”

Cidade de Pawtucket, 05 de Outubro de 2026 (Bravanews) - António Varela manifestou, num post nas redes sociais, a sua revolta perante aquilo que considera ser uma das grandes contradições da relação entre a diáspora e a ilha Brava: o facto de muitos emigrantes defenderem que querem ajudar a sua terra de origem, enquanto mantêm propriedades fechadas e abandonadas durante décadas. Num longo desabafo, Varela afirmou ter acordado às três da manhã a pensar na situação da ilha e disse estar particularmente revoltado, não com desconhecidos, mas com pessoas que conhece pessoalmente.

Oct 5, 2026 - 20:12
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António Varela lança duro apelo aos emigrantes, “A caridade não começa na carteira dos outros, começa no nosso próprio coração”

Segundo António Varela, trata-se de pessoas que convivem com ele, que lhe apertam a mão, afirmam amar profundamente a Brava e perguntam o que podem fazer para contribuir para o desenvolvimento da ilha. No entanto, na sua perspetiva, algumas dessas mesmas pessoas possuem casas na Brava que permanecem fechadas há 20, 30 ou até 40 anos, encontrando-se actualmente em estado de degradação. Para Varela, existe uma contradição evidente entre o discurso de amor à ilha e a realidade de patrimónios que permanecem abandonados.

O responsável chama particularmente a atenção para a situação de emigrantes que partiram da Brava com poucos recursos, encontraram oportunidades no estrangeiro e conseguiram construir uma vida economicamente confortável. Alguns, segundo o seu relato, chegaram mesmo a alcançar grande prosperidade financeira. Apesar disso, Varela questiona como é possível que, enquanto vivem confortavelmente no estrangeiro, continuem a manter imóveis na Brava vazios e sem utilização, quando existem famílias que enfrentam dificuldades para encontrar uma habitação segura e digna.

“Expliquem-me isso”, desafia António Varela, questionando a razão pela qual uma casa deve permanecer fechada e deteriorar-se em vez de poder beneficiar outra pessoa. Na sua visão, uma propriedade abandonada durante décadas deixa de representar apenas um património familiar e passa também a constituir um problema social e urbano, sobretudo quando existem pessoas na ilha que enfrentam dificuldades habitacionais. É neste ponto que Varela endurece o discurso e afirma que aquilo que considera egoísmo não pode ser confundido com amor à Brava.

O desabafo assume também uma dimensão religiosa. António Varela questiona aqueles que frequentam regularmente a igreja, falam de Deus e se apresentam como cristãos, mas que, na sua opinião, não demonstram na prática a mesma compaixão que defendem através da fé. “Onde está o vosso cristianismo quando uma propriedade que não utilizam permanece vazia enquanto outra família sofre?”, pergunta. Para ele, a solidariedade não pode ficar limitada às palavras, às orações ou aos discursos, devendo traduzir-se em ações concretas.

Varela afirma ainda que as suas frequentes viagens à Brava lhe permitem observar directamente situações que considera preocupantes. Entre elas, aponta casas abandonadas, pobreza, idosos com dificuldades para sobreviver e famílias que, segundo o seu relato, continuam a viver em condições que consideram incompatíveis com a dignidade humana. O apelo dirige-se sobretudo à comunidade emigrada, que, depois de ter conseguido melhores condições de vida no estrangeiro, mantém ainda uma ligação material significativa à ilha através de casas, terrenos e outras propriedades.

Por isso, António Varela pede aos emigrantes que deixem de perguntar apenas o que podem fazer pela Brava e que comece por olhar para aquilo que já possuem. “Olhem para a casa que a vossa família mantém fechada há décadas. Olhem para o terreno que ninguém utiliza. Olhem para a propriedade que, pouco a pouco, se está a transformar num monte de pedras”, afirma. Para ele, antes de se pensar em novas campanhas, reuniões ou iniciativas de solidariedade, seria necessário aproveitar os recursos que já existem na própria comunidade.

Na sua intervenção, Varela defende que não é necessário esperar por novos programas governamentais ou por grandes campanhas de angariação de fundos para resolver determinadas situações. Na sua perspetiva, existem soluções que podem começar diretamente pelos proprietários. Restaurar uma casa, colocá-la no mercado, alugá-la, emprestá-la ou até doá-la são algumas das possibilidades apontadas pelo próprio. O essencial, segundo afirma, é impedir que imóveis com potencial para servir a comunidade continuem a deteriorar-se sem qualquer utilização.

O discurso torna-se ainda mais contundente quando António Varela afirma estar cansado daquilo que considera hipocrisia. Critica aqueles que, segundo ele, exibem a bandeira de Cabo Verde, falam constantemente do amor pela Brava e participam em iniciativas comunitárias, mas não tomam medidas relativamente a propriedades que poderiam, na sua opinião, contribuir para melhorar a vida de outras pessoas. Varela reconhece que o tema poderá provocar desconforto e irritação entre alguns emigrantes, mas afirma que já não está disposto a proteger sentimentos individuais enquanto, na sua leitura, existem famílias na Brava a viver sem condições dignas.

Outro ponto levantado por Varela é o chamado “valor sentimental” atribuído a determinadas casas familiares. O autor do desabafo questiona a validade desse argumento quando a propriedade permanece abandonada durante décadas. Se uma casa tem realmente um significado tão importante para a família, defende, então deve ser cuidada, restaurada e preservada. Caso contrário, considera legítimo perguntar se não seria melhor permitir que outra pessoa pudesse utilizá-la e garantir que aquele património continuasse a ter uma função social.

António Varela lembra ainda que nenhum proprietário levará consigo, depois da morte, as casas, terrenos ou dinheiro acumulado ao longo da vida. Na sua visão, aquilo que realmente pode permanecer é o legado deixado às gerações seguintes e à comunidade. Uma casa abandonada poderia transformar-se num lar; uma propriedade sem utilização poderia proporcionar segurança a uma mãe, proteção a crianças ou melhores condições de vida a um idoso. Para Varela, esse impacto humano teria um valor muito superior ao de deixar uma construção em ruínas apenas porque pertenceu à família.

No final do seu desabafo, António Varela deixa uma mensagem direta à comunidade bravense na diáspora: quem realmente deseja ajudar a Brava deve começar pelos recursos que já possui. “Abram as portas. Recuperem as casas. Doem-nas. Emprestem-nas. Vendam-nas por um preço justo. Deixe alguém cuidar delas. Mas façam alguma coisa”, apela. E resume a sua posição numa frase que considera fundamental: “A caridade não começa na carteira dos outros. Começa no nosso próprio coração.” O debate lançado por Varela coloca assim em discussão não apenas o estado de conservação das casas abandonadas, mas também a responsabilidade social dos proprietários e a forma como a diáspora pode transformar património privado em oportunidades concretas para a comunidade da Brava.