Orlando Vieira Balla, a self made man
Orlando da Luz Vieira Balla, nasceu a 29 de abril de 1951, na pacata aldeia de Laranjeira, Freguesia de Nossa Senhora do Monte, em tempos sede episcopal da ilha Brava.
O pai, Belmiro Teixeira Balla, era um homem de fino trato e muito querido pela comunidade. Tal como o filho Orlando, exerceu cargos públicos. Foi chefe do Gabinete de Registo Civil e, simultaneamente, "Defensor do Réu" (atual defensor público) e Notário Público, funções que lhe granjearam respeito e admiração.
A mãe, Maria da Luz Vieira, mulher batalhadora, toda a vida dedicou-se à agricultura de sequeiro, convicta de que o trabalho dignifica. Ao filho único, Orlando, transmitiu elevados valores e princípios éticos e morais, inspirados na sua fé cristã. Aos domingos, não faltava à missa.
Na Escola Primária de Nossa Senhora do Monte, Orlando completou a quarta classe, quedando-se por aí. A família não dispunha de meios para enviá-lo para São Vicente, ou Portugal, a fim de continuar os estudos, como era hábito na época, sobretudo entre as famílias mais abastadas.
Mas na adolescência ouve falar que a bordo dos navios estrangeiros que atracavam no porto de Dakar, no vizinho Senegal, era fácil arranjar emprego. Nasce-lhe, então, a esperança de voltar a estudar para conquistar uma vida melhor. E decide partir.
O pai, que nunca cedeu à tentação de emigrar, e a mãe desaconselham essa solução por considerarem o filho novo demais para enfrentar, sozinho, os desafios de uma vida longe do aconchego de casa, mas são convencidos pelos argumentos do filho.
Assim, em junho de 1968, com apenas 17 anos, Orlando Balla deixaria a terra natal. Esperava-o uma vida sobre as águas do mar, mas não se deixaria vergar pela dor da saudade. Pelo contrário. Por mérito próprio, e com elevado esforço tornar-se-ia um profissional respeitado, um "self made man".
Dakar seria apenas a porta para destinos mais apetecíveis. Holanda, Alemanha, Noruega eram os mais pretendidos por Orlando, porém, o destino final era os Estados Unidos da América, país de oportunidade para quem está disposto a lutar pelo sucesso, como contavam-lhe os tios e irmãos que lá viviam. Orlando Balla teria, entretanto, que esperar três anos para chegar ao seu destino de eleição.
Em Dakar, seis meses depois de lá chegar, arranjou o primeiro emprego, ocupando o cargo de camareiro num navio alemão da empresa Hugo Stiness. Foi assistente de limpeza nessa embarcação, que, menos de um ano depois (Junho de 1969), trocaria por um navio holandês da Royal Netherlands Steam Ship Company, acrescentando ao cargo de camareiro o de 2º marinheiro, apenas alguns meses depois.
Em junho de 1971, desembarcaria finalmente nos Estados Unidos da América, destino de tantos outros bravenses como ele. Em Pawtucket, Estado de Rhode Island, foi operador de máquinas por cerca de três anos, primeiro na ATT e, logo a seguir, no Healthtex. Trabalhou ainda como condutor de camião por um período de três meses, depois de conseguir a licença de condução, coisa que não era nada fácil.
Mas seria na empresa petrolífera norte-americana Esso/Exxon Corporation que, a partir de 1974, Orlando Balla faria carreira, no departamento marítimo, conquistando diversos cargos até alcançar o de coordenador/gestor ou Mooring Master no gabinete de transporte de uma base petrolífera da empresa nas costas de Angola, cuja função principal era velar pelo cumprimento das leis internacionais da marinha e pela segurança da operação, assim como coordenar, orientar e pilotar os navios petroleiros que transportavam o petróleo para várias partes do mundo.
Orlando Balla, que ao serviço da Esso/Exxon Corporation fazia ainda a ligação entre os oficiais do barco e os oficiais locais para garantir a autorização de entrada e saída do país e o despacho de cargas, conseguiria em 1978 (dez anos depois de deixar a ilha Brava somente com a quarta classe de escolaridade) retomar os estudos. E, assim, aos 27 anos, obteve em Providence, também no Estado de Rhode Island, o seu High School Equivalence...
no Secundário), em conformidade com as regras de formação contínua aplicadas nos Estados Unidos da América.
A Escola de Navegação de Baltimore, no estado de Maryland, se tornaria o seu destino de estudo, em 1980. De lá sairia em 1990, com a patente de comandante. Ao seu currículo acrescentaria ainda a licença de piloto para operar no Prince William Sound (Enseada do Príncipe William Sound), no Alaska, bem como a de Deputy Pilot de Barra para os portos de Miami e Fort Lauderdale, ambos na Flórida, depois de passar nos exames com distinção. No entanto, nunca conseguiu emprego nos portos de Fort Lauderdale e de Miami.
Em 2010, ao cabo de 36 anos de serviço, Orlando Balla daria por vinda a sua ligação à Esso/Exxon Corporation. Tinha chegado o momento de mudar de rumo e explorar novas oportunidades, aproveitando a possibilidade que se lhe oferecia de beneficiar de uma reforma antecipada. Ademais, o apelo da sua Brava amada tornara-se irresistível.
Ao longo dos anos de emigração visitou a ilha sempre que as oportunidades e as circunstâncias permitiram. Em 1982 fez a sua primeira viagem à ilha, ao fim de 14 anos nos EUA, e decidiu que daí por diante voltaria a cada dois anos. A vida não permitiu que fosse assim, mas Brava continuava viva em seu coração. Uma lembrança alimentada pelas fortes recordações da sua vivência na ilha, na infância e na adolescência.
Em 2004, ao regressar à ilha faz a si próprio uma promessa que mudaria outra vez o rumo da sua vida: não voltaria a ausentar-se da Brava por períodos longos. Guiava-o a vontade de ajudar os conterrâneos residentes a valorizar as suas capacidades e dons, e de estimular a economia e a sociedade bravense rumo ao desenvolvimento pleno.
Daí que, quando chegou a si o convite de alguns bravenses afetos ao MpD para se candidatar ao cargo de presidente da Câmara Municipal da Brava aceitou-o com convicção, apesar da sua inexperiência política, não sem antes ponderar muito e consultar a família. Afinal, uma candidatura sua traria mudanças drásticas e desafios enormes para si e sua família residente nos Estados Unidos da América.
Em 2012, após um pleito bem disputado e uma votação expressiva na candidatura de que era cabeça-de-lista, Orlando Balla foi eleito Presidente da Câmara Municipal da Brava, tornando-se no primeiro antigo emigrante a ser eleito presidente de uma câmara municipal em Cabo Verde. Tomaria posse a 14 de agosto desse ano, dando início a uma jornada que marcou indelevelmente a ilha. Marcas reconhecidas pelos bravenses que, em setembro de 2016, o reelegeram ao segundo mandato com uma maioria reforçada dos votos.
Entretanto, ciente de que os cargos públicos não são eternos, e por manter intacto o seu objetivo de lutar para que a sua terra natal tenha um futuro melhor, em 2013 Orlando Balla cria a Fundação Brava Solidária. Movia-o, e ainda move, a vontade de dar aos jovens bravenses aquilo que ele próprio, Orlando Balla, não teve: ajuda para estudar. A fundação subsidia os estudos de vários jovens bravenses nas universidades sedeadas em Cabo Verde para ajudá-los a alcançar um nível de conhecimento que os tornarão capazes de fazer uma diferença positiva a favor da sua terra-mãe.
Texto tirado do Livro Para Brava Pela Brava, de Orlando Balla






















