Terão os Estados Unidos iniciado mais uma guerra com motivos falsos? Uma coluna de Henrique Silva

Enquanto as autoridades norte-americanas se esforçam freneticamente para encontrar razões que justifiquem a guerra imprevisível com o Irã que acaba de começar, temos a estranha sensação de déjà vu que remonta a duas centenas de anos dos Estados Unidos inventar pretextos para entrar em guerra.

Mar 2, 2026 - 21:07
Mar 4, 2026 - 18:31
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Terão os Estados Unidos iniciado mais uma guerra com motivos falsos? Uma coluna de Henrique Silva

Antes de elaborar uma justificativa aceitavel para entrar em guerra com o  Irã, o presidente Donald Trump ordenou um ataque conjunto com Israel, alegando que o Irã tinha reiniciado o seu programa nuclear, que possuía suficiente urânio enriquecido para construir uma bomba nuclear em poucos dias e que estava desenvolvendo mísseis de longo alcance que em breve seriam capazes de atingir os Estados Unidos. O New York Times reuniu uma equipe de quatro jornalistas altamente respeitados para analisar essas alegações e concluiu que “todas as três alegações são falsas ou não comprovadas”, citando fontes governamentais e de inteligência: “Autoridades governamentais norte-americanas e europeias, grupos internacionais de monitoramento de armas e relatórios de agências de inteligência norte-americanas apresentam um quadro muito diferente da urgência da ameaça iraniana em comparação com o quadro apresentado pela Casa Branca nos últimos dias”. Embora as alegações sejam comprovadamente imprecisas ou simplesmente falsas, elas seguem um padrão previamente estabelecido de fabricar ou exagerar uma ameaça à segurança nacional, assustar o povo americano e lançar um ataque militar antes que as alegações sejam efetivamente declaradas falsas.

 

A guerra começou e, ao que parece, a paz nunca teve uma chance de sucesso. Tanto os negociadores iranianos quanto os norte-americanos chegaram às recentes negociações sobre armas nucleares em Genebra com posicionamentos inegociáveis. Os  iranianos estavam dispostos a arriscar uma guerra devastadora em vez de ceder às exigências norte-americanas de abandonar definitivamente o seu programa de armas nucleares, considerando isso uma ameaça fundamental à própria legitimidade e sobrevivência do seu regime. Os norte-americanos, por sua vez, chegaram à mesa de negociações despreparados para apresentar exigências claras e objetivas, ao mesmo tempo que o seu governo intoxicava a mídia com uma variedade de justificativas para iniciar a guerra, deixando os seus adversários  iranianos perplexos sobre o que poderiam fazer para eficazmente evitar uma escalada do conflicto. As negociações estavam, portanto, aparentemente destinadas  ao fracasso, como alguns analistas souberam acertadamente prever. O presidente Trump, por outro lado, já se tinha encurralado com a demonização do regime  Iraniano, a sua promessa incumprida de socorrer os manifestantes recentemente mortos aos milhares em cidades  iranianas, a  concentração da maior armada e o maior poder aéreo no Oriente Médio desde a Guerra do  Iraque de 2003 e, por fim, a sua declaração do objectivo crucial de destruir de vez o programa nuclear  iraniano,  criando, com tudo isso, grandes expectativas que só poderiam ser satisfeitas, na prática, com uma acção militar. Não havia jeito nenhum de  voltar atrás relativamente a  esse exercício conjunto de política de alto risco. 

 

As negociações nucleares de Genebra foram marcadas por sérias dificuldades desde o início e, segundo fontes confiáveis, o presidente Trump as considerava uma última tentativa de evitar uma ação militar. Somos levados a crer que  ele ainda não se  tinha  convencido de que a ação militar era a solução preferível. As negociações terminaram obviamente em fracasso. Embora as autoridades norte-americanas possam ter ficado perplexas com a intransigência  iraniana num momento em que o país se sentia ameaçado pela armada mais poderosa que os Estados Unidos reuniram no Oriente Médio nas últimas duas décadas, pelo menos uma analista acredita que o Irã, na verdade, considerou a ameaça americana menos impactante do que ceder às exigências dos EUA. Num artigo para o New York Times, a colunista Erika Solomon utiliza essa surpreendente análise de custo-benefício para explicar que o governo  iraniano preferiria arriscar uma guerra com os Estados Unidos a desitir  dos programas de enriquecimento de urânio e de desenvolvimento de mísseis balísticos que o Irã  considera essenciais para sua sobrevivência. Essa é uma convicção difícil de compreender, a menos que tentemos entender a mentalidade das pessoas que governam o  Irã, como aponta Solomon: “Os clérigos autoritários que governam o  Irã veem essas concessões [sobre o enriquecimento de urânio e o desenvolvimento dos mísseis balísticos] – que, na sua visão, poderiam comprometer a sua ideologia central e a sua soberania – como uma maior ameaça à sua sobrevivência do que o risco de guerra”. Não estamos falando aqui necessariamente da sobrevivência da nação iraniana, mas a  do seu regime teocrático e das carreiras políticas dos seus líderes. Mesmo que alguém  seja crítico à agressividade dos EUA, é difícil ignorar a dificuldade que os seus negociadores terão enfrentado nos esforços diplomáticos com pessoas que pensam dessa maneira.

 

Os negociadores norte-americanos, embora formalmente tivessem como foco as  exigências relativas ao  desmantelamento do programa nuclear iraniano, ao que parece  não convenceram os  iranianos de que a satisfação dos requisitos relativos a armas nucleares seria suficiente para evitar a guerra. Nos dias que antecederam a reunião, as autoridades norte-americanas mudaram constantemente as suas narrativas políticas e as suas exigências ao  Irã: primeiro, invocaram o imperativo moral de socorrer os manifestantes  iranianos que estavam sendo mortos aos milhares nas cidades do país envolto em turbulência. Como não conseguiram intervir antes de que as forças de segurança  iranianas reprimissem as manifestações, passaram a exigir que o  Irã  finalmente encerrasse todo o enriquecimento de urânio e abandonasse o seu estoque de material nuclear. Mais adiante, insinuaram a mudança de regime no  Irã  como um objetivo do governo norte-americano. Escrevendo para o Washington Post poucos dias antes do ataque norte-americano e israelense, o finalista do Prêmio Pulitzer de jornalismo Max Boot tentou resumir as dificuldades dos negociadores  iranianos da seguinte forma: “Então, o que os aiatolás podem fazer, se é que podem fazer algo, para evitar os ataques aéreos dos EUA? Parar com a repressão? Parar com o programa nuclear? Parar com o programa de mísseis balísticos? Parar de apoiar grupos aliados? Ou simplesmente parar de governar o  Irã? Se os negociadores  iranianos estão tão perplexos quanto muitos observadores, não é de se admirar que as negociações entre Teerã e Washington não tenham avançado muito.”

 

Assim, pois, a política de alto risco era evidente em ambos os lados, ainda que por razões diferentes: no caso do  Irã , como uma estratégia de sobrevivência do regime e para salvar as aparências e, para os Estados Unidos, sabe-se lá porquê, pois ninguém pode determinar com certeza os motivos ou objetivos de Trump para invadir o  Irã . E é aí que reside o verdadeiro perigo, pois, como argumentou recentemente a colunista Erika Solomon no New York Times, “uma perigosa discrepância de percepções entre o  Irã  e os Estados Unidos é o motivo pelo qual os esforços para negociar um acordo sobre as capacidades nucleares e militares do  Irã  parecem cada vez mais frágeis” e, segundo especialistas, “um novo conflito regional parece quase inevitável”. Profecia essa  que resultou absolutamente acertada. Infelizmente, os caminhos tortuosos da história estão repletos de conflitos mortais resultantes de mal-entendidos, discrepâncias de percepções e diferenças culturais. E não importa quão refinada seja a diplomacia usada para evitar um conflito, a paz tem mais probabilidade de resultar do equilíbrio de poder do que da compreensão mútua. É assim que funcionam as relações internacionais.

 

O equilíbrio de poder estava claramente inclinado a favor dos Estados Unidos e de Israel, e essa é a razão pela qual, em retrospectiva, talvez não se devesse ter levado as negociações nucleares de Genebra muito a sério. Um dos motivos que tornaram então  a guerra provável foi justamente a percepção, por parte dos EUA e de Israel, desse desequilíbrio, o que poderá ter alimentado a esperança de uma vitória fácil. O sistema de defesa israelense “Iron Dome” contra mísseis  iranianos, a dizimação dos grupos paramilitares apoiantes dos  iranianos Hezbollah e Hamas, a queda do regime de Assad na Síria e o bombardeio conjunto EUA-Israel contra instalações nucleares  iranianas em junho do ano passado representaram duros golpes para as capacidades de defesa e o poder do  Irã  no Oriente Médio. Poucas horas após o início da guerra, um oficial israelense apareceu na TV argumentando que o seu país e os Estados Unidos aperceberam-se de uma janela de oportunidade e a aproveitaram para impedir que o  Irã  desenvolvesse capacidade nuclear e montasse mísseis que, em curto prazo, pudessem atingir até os EUA. Adiar o problema, argumenta ele, abriria caminho para confrontos ainda maiores e mais destructivos no futuro. Existem, portanto, fortes indícios de que o destino do  Irã  já estava dterminado de antemão, independentemente das negociações nucleares de Genebra. De fato, o ataque dos EUA e de Israel interrompeu o breve intervalo até a retomada das negociações, prevista para a semana seguinte.

 

As manobras políticas para justificar uma guerra contra o  Irã  trazem-nos amargas recordacões  das maquinações ainda mais elaboradas para fabricar consenso em torno da Guerra do  Iraque em 2003. George W. Bush adotou inicialmente a premissa de que o regime de Saddam Hussein tinha  adquirido armas de destruição massiva que não só poderiam ser usadas para ameaçar os  seus vizinhos, como também poderiam ser fornecidas a organizações terroristas. O governo de Bush alegou que o  Iraque possuía programas ativos de produçao de armas  químicas, biológicas e potencialmente nucleares. Esse argumento obviamente teve grande influência apenas alguns anos após o ataque de 11 de setembro. Acontece que extensas buscas após-invasão não encontraram estoques de armas de destruição massiva, invalidando a justificativa inicial para a guerra contra o  Iraque. Quando as armas de destruição massiva não foram encontradas, as autoridades norte-americanas encontraram uma justificativa alternativa – a posteriori – para a guerra contra o  Iraque, enquadrando a invasão como parte da estratégia geral da Guerra ao Terror. O governo norte-americano sugeriu que o regime de Saddam Hussein apoiava ou abrigava terroristas, incluindo possíveis ligações com os ataques de 11 de setembro. As investigações desencadeadas a seguir não conseguiram revelar vínculos estratégicos entre o  Irão que e a Al-Qaeda, organização que Saddam Hussein aparentemente abominava. Chegou a hora de, então, elaborar melhor as razões para uma guerra que estava custando caro em termos de vidas  e recursos norte-americanos. A guerra foi então racionalizada como uma cruzada pelos direitos humanos para destruir o regime brutal de Saddam Hussein. Citaram-se relatórios destacando a repressão da população civil do  Iraque, incluindo o uso de armas químicas contra civis e minorias (curdos e xiitas). Esse argumento teve uma enorme influência moral, apesar de a comunidade internacional não ter feito nada para proteger essas minorias da fúria de Saddam Hussein. Por razões óbvias, esse argumento também ocultou o fato de que Saddam Hussein só foi capaz de produzir armas químicas – toda a produção foi posteriormente desmantelada após os esforços de desarmamento da ONU – e,  mais grave ainda, usá-las durante a guerra  Irão-Iraque com a assistência dos EUA, que forneceram materiais de "duplo uso", informações de inteligência e outros tipos de apoio, tudo isso enquanto sabiam que o  Iraque estava usando armas químicas no campo de batalha, conforme o relatado pela prestigiada revista Foreign Policy. À medida que a guerra se intensificava e as baixas norte-americanas se revelavam insustentáveis  mesmo considerando as preocupações humanitárias, o governo dos EUA então justificou a sua intervenção com um ambicioso objetivo transformador em todo o Oriente Médio: derrubar Saddam Hussein criaria um modelo democrático, inspirando a democratização em todo o Oriente Médio, promovendo a estabilização regional e a redução do terrorismo. Ao que parece, as autoridades norte-americanas foram incapazes de prever a descida do  Iraque ao caos como resultado da invasão estrangeira, criando as condições para a incubação de uma insurgência radical que daria origem ao Estado Islâmico. O resto é história.

 

Os esforços para fabricar consenso tanto para a Guerra contra o Iraque em 2003 quanto a guerra imprevisível que os Estados Unidos ora acabam de iniciar com o  Irã  encaixam-se perfeitamente num padrão previamente estabelecido de engano perigoso e custoso do povo norte-americano que remonta, por mais incrível que pareça, a quase duzentos anos. Um dos primeiros exemplos históricos dessa tradição de manipulação desrespeitosa e de grandes consequências foi a explosão do navio de guerra USS Maine,  a qual foi usada para angariar o apoio do povo norte-americano à Guerra Hispano-Americana de 1898. Em 15 de fevereiro de 1898, o navio de guerra USS Maine explodiu no porto de Havana, matando 260 marinheiros norte-americanos. Em poucas horas, o governo dos EUA e jornais sensacionalistas culpavam a Espanha pelo desastre. "Lembrem-se do Maine, que se dane a Espanha!" tornou-se o grito de guerra que impulsionou os Estados Unidos para a Guerra Hispano-Americana, a qual começou apenas dois meses depois. No entanto, a Espanha quase certamente não teve nada a ver com isso. Em 1976, analistas forenses norte-americanas determinaram que a explosão foi provavelmente causada por um incêndio acidental inicial que inflamou a grande quantidade de munição que o navio transportava, pondo assim fim à teoria da sabotagem espanhola.

 

O incidente do Golfo de Tonkin durante a  Guerra do Vietnã (1964) é mais um exemplo de manipulação da opinião pública norte-americana para justificar a escalada de um conflito. Em 2 de agosto de 1964, lanchas torpedeiras norte-vietnamitas supostamente atacaram o USS Maddox em águas internacionais. Dois dias depois, o governo de Johnson alegou que um segundo ataque, mais grave, tinha ocorrido contra o Maddox e o USS Turner Joy. O primeiro ataque de fato aconteceu, embora o Maddox estivesse realizando operações de coleta de informações em apoio a incursões sul-vietnamitas contra território norte-vietnamita, o que deficilmante pode passar por ato inocente como os EUA alegaram. Mas o segundo ataque, o qual Johnson usou para justificar uma escalada militar maciça, provavelmente nunca ocorreu e o evento é amplamente considerado controverso e possivelmente inventado. As consequências dos alarmantes relatos do incidente foram, no entanto, drásticas: o Incidente do Golfo de Tonkin levou diretamente à Resolução do Golfo de Tonkin, aprovada pelo Congresso dos EUA em 7 de agosto de 1964. Essa resolução concedeu ao presidente Lyndon B. Johnson ampla autoridade para usar a força militar no Sudeste Asiático sem uma declaração formal de guerra pelo Congresso dos Estados Unidos. Como resultado, os Estados Unidos intensificaram significativamente o seu envolvimento no Vietnã, incluindo o envio de um grande número de tropas de combate e o aumento dos bombardeios aéreos contra o Vietnã do Norte, contribuindo enormemente para os resultados desastrosos da Guerra do Vietnã: mais de 58.000 mortes entre norte-americanos e milhões de baixas vietnamitas, sem contar a enorme destruição material e o custo moral que ainda reverbera na política norte-americana.

 

Um terceiro exemplo foi o depoimento de Nayirah durante a Guerra do Golfo (1991). Em outubro de 1990, enquanto o presidente George H.W. Bush angariava apoio para a guerra contra o  Iraque, uma menina kuwaitiana de 15 anos chamada Nayirah prestou um depoimento devastador perante o Congresso. Em meio de lágrimas copiosas, ela descreveu o seu trabalho voluntário num hospital na Cidade do Kuwait, onde testemunhou soldados  iraquianos invadindo o local armados. "Eles tiraram os bebês das incubadoras, levaram as incubadoras e deixaram as crianças morrer no chão frio", soluçou ela. "Foi horrível." O seu depoimento foi transmitido por toda a América e se tornou um ponto de viragem na opinião pública. O presidente Bush citou repetidamente a história das incubadoras e ela foi mencionada por inúmeros senadores e representantes como justificativa para a Resolução da Guerra do Golfo. Mas a história de Nayirah foi uma completa invenção. O seu nome completo era Nayirah al-Sabah e ela era filha do embaixador do Kuwait nos Estados Unidos. Ela tinha sido treinada pela Hill & Knowlton, uma importante empresa de relações públicas que trabalhava para o governo do Kuwait, como parte de uma sofisticada campanha de propaganda para arrastar os Estados Unidos para a guerra. Após a guerra, jornalistas que investigaram as alegações não encontraram nenhuma evidência de que soldados iraquianos tivessem retirado bebês de incubadoras. Hospitais na Cidade do Kuwait não tinham quaisquer registros  de tais incidentes, e a equipe médica negou a história. Organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional, que inicialmente endossaram a alegação e acrescentaram o número de bebês supostamente mortos para mais de 300, posteriormente retiraram o seu apoio quando nenhuma evidência surgiu. A mentira  das incubadoras foi crucial para superar a relutância norte-americana em participar numa guerra estrangeira apenas 15 anos após o fracasso no Vietnã. Ao dar a Saddam Hussein a aparnêcia de um assassino de bebês, o governo Bush transformou com sucesso um conflito por petróleo e território  numa cruzada moral que os norte-americanos se sentiram compelidos a apoiar.

 

Da mesma forma que o engano do povo norte-americano para fabricar consenso serviu de justificativa para muitas guerras historicamente importantes nas quais os Estados Unidos optaram por se envolver no passado, o governo de Trump e os seus apoiantes na mídia continuarão a alterar as narrativas e justificativas para a guerra com o  Irã  à medida que as realidades se impõem, as percepções mudam e eles sondam oportunisticamente a opinião pública nesse processo. Tal estratégia criará uma espécie de zona de conforto psicológico para impedir que o povo norte-americano se depare repentinamente com a constatação de que aprovou o sacrifício de jovens norte-americanos e a utilização do tesouro nacional -além de arriscar a reputação internacional do seu país- em mais uma guerra desnecessária. E, mais uma vez, deixaremos de dar ouvidos à advertência de um gigante político do século XX, muito admirado nos Estados Unidos, o senhor  Winston Churchill: "Aqueles que não aprendem com a História estão condenados a repeti-la".