Uma pequena homenagem à memória do meu primo, Ivinho - Texto de Julio Gomes
No dia 15 de fevereiro deste ano partiu o meu primo Ivo Monteiro, aos 88 anos — o nosso eterno e saudoso “Ivinho”.
O Ivinho nasceu na nossa querida e pequenina ilha Brava — a nossa Djabraba — onde desde cedo abraçou a profissão de mecânico, trabalho que desempenhou com dedicação ao longo da vida. Serviu também como funcionário da Câmara Municipal e teve a importante responsabilidade de controlar a central elétrica da ilha.
Naquele tempo, a luz era luxo — apenas algumas horas por noite —, mas suficiente para iluminar casas, ruas e corações bravenses, diminuindo o “sucuro di breu” da nossa vila. Durante o dia, além de mecânico, foi também condutor do “Mar Azul di Nho Djin” e mais tarde dono da sua própria carrinha, a famosa Juvita, transportando pessoas, mercadorias e histórias entre a Furna, Mato Grande, Nossa Senhora do Monte, Faja d’Água e “tudu braquinho undi carro ta circulaba”.
Foi ao lado dele que, ainda menino, vivi momentos que guardo para sempre. Aos 12 anos, comecei a acompanhá-lo no vai-vem das suas viagens — muitas vezes numa boleia até à Furna, o porto principal da Brava. Ali descobri o encanto do mar, das águas cristalinas onde nadava sob o olhar atento do Ivinho. “El ta spiabá mi, simá quem qui ta gardaba um fidju”.
Cada chegada de barco era uma festa: pessoas trazendo notícias da Praia e do resto do mundo, mercadorias, coisinhas frescas e visitantes. Tudo era novidade, tudo era vida. Tudo era alegria, tudo era mais um dia!!!
À noite, depois do jantar, sentávamo-nos na praça, em frente à casa de Nho Chiquinho, ouvindo histórias e risadas — especialmente as do Nhó Tei — enquanto esperávamos para irmos apagar a luz às 11 horas. Também me ensinou como arrancar os motores da central, estabilizá-los e depois “sendé luz” nas ruas e nas casas da vila. “Luz era só na Vila”. Eram momentos simples, mas cheios de significado. Momentos simples “mas qui hoji ten valor sem fim”.
“’N cre també reparti”, algumas memórias que me ficaram gravadas para sempre.
A minha primeira viagem para São Vicente, quando o Ivinho foi fazer estágio para a central — naquele tempo, ir a Soncente desde a Brava era como viajar para Lisboa. (Mindelo era nós Metrópole).
Foi também com ele que conduzi pela primeira vez uma motorizada, Honda 50 do Djinzinho de Nhó Djin de Covarodela. No mesmo dia, com orgulho, ele disse ao papá: “Nhó manda buscá Júlio um motorizada na S. Vicente”.
Poucos dias depois já era dono de um Yamaha 50 "Pipilita" em folha. Lembro-me da minha primeira aventura “di trivimento” ao descer o caminho velho (via Sta. Bárbara) para a Furna. Ao chegar, encontrei um poderoso governante da ilha que chamou-me a atenção por eu ser menor e que não podia descer no caminho “bedju”. Mas o Ivinho, com coragem e justiça, respondeu: “Pamodi qui Ixa di Nhó Tuca, Tiá di Nhó Chico e otus ta diché … e el é ca podé? Sé mota é registado e el tem licença di Câmara, portanto el podé diché també.”
Por que o Ivinho tentou defender-me, acabou também por levar uma repreensão… e eu, envergonhado e com medo "di nha pai sabé cumá 'n lebá um raspaneti di homi grandi". Pior ainda por cima diante de uma antiga namoradinha que se encontrava em férias na Furna.
Noutra ocasião, quando eu cheguei de mota enquanto ele fazia manutenção num carro da Câmara, disse ao poderoso governante: “Nhó cumprá fidjo di nhó um motinha també.” A resposta foi fria: “Não…‘n ta cumpral livros pel studa pel da bom homi.”
Fiquei abalado. Mas mais tarde, a sós, o Ivinho disse-me: “Ca bu amportá…bo ta da bom homi també.” Palavras bem gravadas me ficaram.
Guardo também na mente com carinho o dia em que ele recebeu uma camurcinha dos Estados Unidos que não lhe servia, era “pertado na el”. Durante semanas, via-a pendurada no seu quarto e sonhava…”um dia el tá damel”. Até que um dia ele ofereceu-ma. Aos domingos, vestia-a orgulhoso, andando na minha motinha “Pipilita”, todo “basofo” pelas ruas de Djabraba.
Foi também ele quem me deixou conduzir pela primeira vez um carro, o camião Mar Azul. Levou-me ao campo de jogo di Nhó Padre para praticar. Depois de muitas voltas, pensei que já estava pronto para a estrada. Perguntei-lhe se podíamos sair… ele sorriu e disse apenas: “Credu inda nau.”
O Ivinho sempre me protegeu. Uma vez, na praça, um funcionário dos correios quis agredir-me. Ele interveio sem hesitar: “Si bu dal, an ta dabu també. Lembrá ma el tem pai.”
Era assim — sempre firme, justo, protetor.
Essa convivência durou até outubro de 1973, quando, aos 17 anos, por decisão da minha mãe, parti para os Estados Unidos para evitar a guerra colonial. Foi uma despedida difícil…cheia “di sodadi”.
Hoje, neste momento de despedida, resta-me agradecer por todas essas memórias.
“N ta gradicê, di corasan”.
Rezo para que Deus lhe conceda o descanso eterno, e que na eternidade permaneça o aroma fresco e suave das flores da nossa querida Djabraba. “Deus tá dabu um descanso eterno, Ivinho”.
Descansa em paz, Ivinho. Ficarás para sempre nos nossos corações.
“Bu ta vive na nós memória, pa sempre”.
Texto de Julio Gomes
























