Uma Brava além das promessas eleitorais e o retrato de um país a nove velocidades – o sector da agricultura
Cidade de Nova Sintra, 6 de Abril de 2026 (Bravanews) - Falar da ilha Brava é, muitas vezes, falar de promessas. Promessas de desenvolvimento, promessas de investimentos, promessas de oportunidades que quase sempre aparecem em tempo de campanha eleitoral e desaparecem logo depois das eleições. Mas existe uma Brava real, silenciosa, esquecida, que vive longe dos discursos políticos e dos palcos eleitorais. Essa Brava chama-se agricultura.
A agricultura na ilha Brava não é apenas uma actividade económica. É sobrevivência, é tradição, é identidade, é o sustento de muitas famílias. No entanto, o sector agrícola continua a ser tratado como um sector secundário, quase invisível nas políticas públicas, apesar de todos os discursos sobre segurança alimentar e desenvolvimento rural.
Se quisermos olhar para Cabo Verde como um país, temos de admitir uma realidade dura: somos um país a várias velocidades. E a Brava, no sector agrícola, parece estar na última dessas velocidades.
O maior problema da agricultura na Brava continua a ser a água. Este não é um problema novo, não é uma surpresa, não é algo que apareceu ontem. É um problema estrutural, antigo, conhecido por todos os governos, por todas as câmaras municipais, por todos os partidos políticos.
Os agricultores dependem das chuvas, de pequenas nascentes, de reservatórios improvisados e, muitas vezes, de água transportada de longe. Há zonas agrícolas onde a água chega de forma irregular, outras onde simplesmente não chega.
Fala-se muito de barragens noutras ilhas, fala-se de furos, de dessalinização, de mobilização de água, mas a Brava continua praticamente fora dessas grandes soluções estruturais. Ressalva-se o investimento de grande porte na dessalinização, mas que até agora não produziu uma única gota de água por questões técnicas. Sem água, não há agricultura. E sem agricultura, muitas famílias ficam sem rendimento.
Outro problema grave é a falta de mão de obra. A Brava tem perdido população ao longo dos anos, sobretudo jovens. Muitos emigraram, outros mudaram-se para outras ilhas à procura de trabalho e melhores condições de vida.
A agricultura ficou nas mãos dos mais velhos. Hoje, em muitas zonas agrícolas da ilha, quem trabalha a terra são pessoas com mais de 50, 60 ou até 70 anos. Os jovens não querem trabalhar na agricultura porque é um trabalho duro, pouco rentável e sem garantias.
Sem renovação geracional, a agricultura na Brava corre o risco de desaparecer lentamente. Terrenos que antes eram cultivados hoje estão abandonados. Campos que antes produziam milho, feijão, batata-doce e hortaliças hoje estão cobertos de mato.
Outro dos grandes problemas é a falta de apoio técnico especializado. Muitos agricultores trabalham com base na experiência e na tradição, mas hoje a agricultura exige técnicas modernas, gestão de água, escolha de sementes, combate a pragas, planeamento de produção e acesso ao mercado.
Na Brava, o apoio técnico agrícola é insuficiente. Os agricultores queixam-se de falta de acompanhamento, falta de formação, falta de visitas técnicas e falta de projetos agrícolas estruturados.
Não basta distribuir algumas sementes ou ferramentas de vez em quando. Agricultura moderna precisa de assistência técnica permanente, formação, projetos de irrigação, estufas, cooperativas e acesso ao financiamento.
Em cada eleição, e esta nao vai ser diferente, a agricultura aparece nos programas políticos. Fala-se em apoiar agricultores, melhorar a irrigação, criar cooperativas, facilitar acesso a crédito, investir no mundo rural. Mas depois das eleições, a agricultura volta a desaparecer das prioridades.
A verdade é que a agricultura na Brava continua a sobreviver graças ao esforço dos agricultores e não graças às políticas públicas. São os agricultores que fazem milagres com pouca água, poucos meios e quase nenhum apoio.
Quando se olha para Cabo Verde, percebe-se que o desenvolvimento não acontece da mesma forma em todas as ilhas e em todos os sectores. Há ilhas com grandes investimentos, grandes obras, turismo, aeroportos, hotéis e crescimento económico rápido.
Depois há outras ilhas onde o desenvolvimento acontece muito devagar. E dentro dessas ilhas, ainda existem sectores completamente esquecidos, como a agricultura na Brava.
Por isso, podemos dizer que Cabo Verde não é um país a duas velocidades, mas sim um país a muitas velocidades. E a agricultura na Brava está numa das velocidades mais lentas.
Se quisermos levar a agricultura a sério na Brava, algumas medidas são essenciais:, Investimento sério na mobilização de água, construção de reservatórios e sistemas de irrigação, apoio técnico agrícola permanente, formação para agricultores, incentivos para jovens entrarem na agricultura, criação de cooperativas agrícolas, facilitar acesso a financiamento agrícola e apoio na comercialização dos produtos.
Sem estas medidas, a agricultura continuará apenas como agricultura de sobrevivência e não como um verdadeiro motor de desenvolvimento local.
A Brava precisa de mais do que promessas eleitorais. Precisa de políticas sérias, investimentos estruturais e visão de longo prazo. A agricultura pode ser uma das bases do desenvolvimento da ilha, mas para isso precisa de água, apoio técnico, mão de obra e políticas públicas consistentes.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos a ter discursos bonitos em tempo de campanha e agricultores esquecidos no resto do tempo.
A verdadeira Brava não aparece nos comícios, nem nos cartazes eleitorais. A verdadeira Brava está nos campos, nas ribeiras, nos agricultores que continuam a trabalhar a terra todos os dias, apesar de todas as dificuldades. E é essa Brava que precisa de ser ouvida.
Moises Santiago






















