Na guerra do Irão, a verdade foi a primeira vítima - Coluna de Henrique Silva

Diz-se frequentemente que a verdade é a primeira vítima de uma guerra, um axioma geralmente atribuído ao dramaturgo grego Ésquilo. De facto, as guerras — pelo menos as iniciadas pelos Estados Unidos — têm demonstrarado inclusive a estranha capacidade de produzir a primeira vítima antes mesmo do primeiro tiro ecoar ou da primeira bomba explodir; pois a verdade sofre, muitas vezes, um golpe mortal antecipadamente; e, assim que ela morre, é prontamente substituída por uma mentira que ganha vida para justificar o início de um novo conflito.

Mar 30, 2026 - 06:20
Mar 30, 2026 - 07:22
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Na guerra do Irão, a verdade foi a primeira vítima - Coluna de Henrique Silva

Nos dias que precederam imediatamente o ataque norte americano-israelita de 28 de fevereiro contra o Irão, a administração Trump justificou o início de uma guerra perigosa e imprevisível com as três razões seguintes, que viriam a revelar-se falsas após o escrutínio minucioso de jornais prestigiados como o New York Times e o Washington Post, bem como de analistas políticos, especialistas e até de políticos convencionais:

1. O Irão tinha reiniciado o seu programa nuclear;

2. O Irão possuía urânio enriquecido suficiente para construir uma bomba nuclear em poucos dias;

3. O Irão estava a desenvolver mísseis de longo alcance que em breve seriam capazes de atingir os Estados Unidos.

Não é difícil refutar, através de uma análise cuidadosa e dos seguintes contra-argumentos, a iminência desses três  riscos apresentada como o motivo para entrar em guerra:

1. Processos científicos tão complexos como a construção de armas nucleares ou de mísseis de longo alcance (os únicos capazes de alcançar os Estados Unidos a partir do Irão), não permitem um cálculo de tempo de execução tão preciso.

2. Caso as agências de informação norte-americanas tivessem falhado em detetar a tempo um avanço tão espectacular na construção de armas nucleares e no desenvolvimento de mísseis de longo alcance por parte do Irão, tal lapso constituiria talvez a maior falha  na história dos serviços de informação dos Estados Unidos, e os líderes dessas agências deveriam ser prontamente demitidos.

3. Apenas um milagre científico — e a ciência dificilmente opera com base em milagres — poderia ter permitido aos cientistas iranianos produzir, numa questão de meses, armas nucleares operacionais após as instalações nucleares do Irão terem sido completamente destruídas pelo bombardeamento conjunto dos EUA e Israel em junho passado, conforme Trump declarou publicamente.

Quem sabe, talvez a atual administração norte-americana contava com o apoio esmagador do povo norte-americano à guerra, ao nível do apoio inicialmente registado na Guerra do Iraque de 2003, que fora então ligada ao ataque terrorista de 11 de setembro acontecido dois anos antes. Se com isso contava, deveria ter preparado a opinião pública e garantido o consenso nacional antes de bombardear o Irão, tal como foi feito antes do início das hostilidades em 2003. Não tendo feito isso, assim que os combates começaram, os funcionários da administração Trump entraram em sobressalto com uma campanha mediática que resultou num conjunto desconcertante de declarações conflituosas, contraditórias e em constante mudança sobre as razões da guerra, os seus objetivos e o seu desfecho. Até agora, passadas quatro semanas de conflito, continua a não haver clareza sobre esses aspetos da guerra do Irão.

Uma das primeiras razões apresentadas para justificar a guerra foi particularmente embaraçosa para os responsáveis de Trump, após ter sido desmentida nos debates políticos que acabaram por desembocar no interrogatório da Diretora de Segurança Nacional, Tulsi Gabbard, numa audiência recente do Congresso. Ela tinha omitido na sua declaração ao Congresso a conclusão pelas próprias agências de informação que ela dirige de que o Irão não representava uma ameaça iminente para os Estados Unidos. Porém, quando questionada pelo Senador Jon Ossoff sobre a alegação pelo seu governo de que o Irão constituía, sim, um perigo iminente que exigia ação militar, Gabbard fez uma afirmação espantosa: "Senador, a única pessoa que pode determinar o que é e o que não é uma ameaça iminente é o Presidente." Ossoff tinha diretamente perguntado se as agências de informação tinham apurado uma "ameaça nuclear iminente" por parte do Irão. Gabbard tentou explicar-se com a estranha argumentação de que a iminência de uma ameaça à segurança nacional é uma determinação presidencial baseada num "conjunto alargado de informações" — incluindo sondagens de opinião pública? —, e não uma determinação feita pelas agências de informação. Como salientou o New York Times, ela com isso delegou no presidente a responsabilidade de avaliar informações sobre os programas nucleares e de mísseis de longo alcance. Ora, o presidente não está necessariamente qualificado para fazer uma avaliação profissionalmente tão especializada.

Pode argumentar-se, no entanto, que Gabbard fez pior do que delegar a sua responsabilidade profissional no Presidente, a quem ela tem a obrigação de aconselhar em matérias de segurança nacional. Ela basicamente — e talvez pela primeira vez na história do governo norte- americano — suspendeu o requisito estrito de objetividade na avaliação de informações críticas para a segurança nacional. E este é um erro profissional grave, cujo conhecimento poderá tirar o sono a funcionários americanos sérios. É o tipo de comportamento semelhante ao de um paciente que abdica da sua responsabilidade de fornecer objetivamente os sintomas ao médico responsável pelo tratamento de uma doença mortal.

O que Tulsi Gabbard fez — se realmente acreditarmos que deixou ao Presidente a determinação da ameaça iminente — foi permitir a um Presidente mediático, com aspirações típicas de imperadores tradicionais, o espaço livre no seio da opinião pública para fomentar o apoio a uma guerra que pode não servir minimamente os interesses da nação e pode muito bem pôr em perigo a segurança dos cidadãos americanos, tanto no estrangeiro como no próprio país. Definitivamente, não é isso que a nação espera de uma Diretora de Segurança Nacional.

A implicação lógica de atribuir ao Presidente a responsabilidade de avaliar ameaças iminentes à segurança nacional é que isso lhe permite decidir que informações de inteligência se tornam factos. Como Comandante-em-Chefe, ele fica então autorizado a estabelecer os seus próprios conjuntos de "factos" relativos à segurança nacional, ficando assim estabelecida a primazia da autoridade sobre a objetividade.

A primazia da autoridade sobre a objetividade — conforme explicado acima — quando a segurança nacional está em jogo, cria o potencial para a subversão da democracia, ao negar à nação o direito de conhecer a verdade e de usar esse conhecimento para exercer um controle firme sobre o seu próprio destino. O conhecimento da verdade em relação à segurança nacional, ao garantir a opinião informada e rigorosa da nação sobre decisões relativas ao seu próprio destino, funciona, em última análise, como garante do exercício efetivo da soberania.

A troca de palavras na audiência parlamentar entre Jon Ossoff e Tulsi Gabbard faz-nos recordar o célebre momento de Kellyanne Conway em 2017, no qual ela cunhou a expressão "factos alternativos" para descrever o uso de desinformação na construção de uma alegada verdade. É-lhe por vezes creditada a inauguração do ambiente político da pós-verdade que está a ganhar terreno no panorama político norte-americano.  Ao que parece, Tulsi Gabbard sente-se plenamente confortável nesse ambiente. 

Henrique Silva