Lomba Tantum está a perder gente, até quando?
Lomba Tantum, 3 de Outubro de 2026 - Lomba é uma zona conhecida pela sua morabeza, pela amizade entre as pessoas e pelo espírito comunitário. Durante anos, foi uma comunidade cheia de jovens, famílias, trabalhadores e pequenos negócios. Hoje, porém, a realidade parece estar a mudar de forma preocupante. Cada vez mais pessoas deixam as suas casas e procuram melhores condições de vida noutras ilhas. E esta saída começa a deixar marcas visíveis na comunidade.
O alerta lançado por Anildo Baptista Lobo merece ser levado a sério. Segundo o seu testemunho, jovens, homens, mulheres e chefes de família estão a abandonar Lomba e a Brava em direção, sobretudo, a Santiago e Fogo. A razão apresentada é simples e dura: falta de trabalho, dinheiro e oportunidades. Não se trata necessariamente de falta de vontade de permanecer. Muitas vezes, é a necessidade de procurar fora aquilo que não se encontra dentro da ilha.
Quando se pergunta a alguém por que razão deixou a sua casa, cancelou o seu negócio ou decidiu viajar, a resposta parece repetir-se: “Brava ca teni trabalho e dinheiro e oportunidade pa djuda jovens”. Esta realidade deveria provocar uma reflexão profunda entre todos os bravenses. Porque quando uma pessoa parte por vontade própria, é uma decisão individual. Mas quando muitas pessoas partem pela mesma razão, estamos perante um problema que merece atenção coletiva.
A questão não pode ser colocada apenas sobre aqueles que partem. É legítimo que cada cidadão procure melhores condições de vida, melhores salários, formação ou oportunidades profissionais. Ninguém deve ser condenado por procurar um futuro melhor para si e para a sua família. O verdadeiro problema começa quando permanecer na própria terra deixa de ser uma opção viável. Nesse momento, a migração deixa de ser apenas uma escolha e passa também a refletir as condições existentes na ilha.
A agricultura, que poderia representar uma importante fonte de rendimento, enfrenta várias dificuldades. A pecuária também continua a encontrar obstáculos que tornam difícil transformar o trabalho em rendimento suficiente para uma família. Produzir na Brava nem sempre significa conseguir vender, transportar e obter retorno adequado pelo esforço realizado. Sem políticas consistentes de apoio, financiamento e acesso aos mercados, muitos acabam por procurar alternativas noutras paragens.
O mesmo acontece com os pequenos negócios. Um jovem pode ter uma boa ideia, vontade de trabalhar e até capacidade para desenvolver uma atividade económica, mas sem capital, mercado, formação e condições adequadas, o projeto pode não sobreviver. É nesse momento que muitos começam a olhar para Fogo, Santiago ou outras ilhas como espaços onde poderão encontrar aquilo que falta na Brava. E, pouco a pouco, a ilha perde pessoas que poderiam contribuir para o seu próprio desenvolvimento.
É aqui que surge uma pergunta inevitável: até que ponto esta situação representa uma responsabilidade do poder local e do poder central? Naturalmente, nenhuma autoridade pode impedir uma pessoa de procurar oportunidades noutro lugar. Mas cabe às instituições públicas criar condições para promover emprego, investimento, empreendedorismo e desenvolvimento económico. O desafio está precisamente em transformar potencial existente em oportunidades concretas para a população.
A Brava não é uma ilha sem talentos. Pelo contrário, existem jovens com formação, capacidade, criatividade e vontade de trabalhar. Existem também agricultores, criadores, comerciantes, empresários e profissionais com experiência acumulada dentro e fora da ilha. O problema é encontrar mecanismos para aproveitar esse potencial. Uma estratégia de desenvolvimento não pode limitar-se a esperar que as oportunidades apareçam; é preciso procurar, criar e incentivar essas oportunidades.
Lomba, neste contexto, deve ser vista como parte de uma questão maior que afeta toda a Brava. Quando uma comunidade começa a perder população, os efeitos ultrapassam as famílias que partem. Menos pessoas significam menos consumidores, menos movimento comercial e, muitas vezes, menos procura por determinados serviços. Negócios podem fechar, casas podem ficar vazias e atividades comunitárias podem perder força. É um processo silencioso, mas que pode ter consequências profundas.
Por isso, dizer aos jovens simplesmente “fiquem na Brava” não é suficiente. É preciso responder a uma pergunta muito mais importante: ficar para fazer o quê? Ficar sem emprego, sem acesso a financiamento, sem mercado e sem perspetivas de crescimento não pode ser apresentado como solução. Os jovens precisam de razões concretas para acreditar que podem construir uma vida digna na sua própria ilha. E essas razões precisam ser construídas através de oportunidades reais.
Isso não significa que a Brava deva competir com Santiago ou Fogo em todas as áreas. Significa identificar aquilo que a ilha tem de próprio e transformar essas características em vantagens. Turismo, agricultura, pecuária, pesca, transformação de produtos locais, economia digital, serviços e pequenos negócios podem fazer parte de uma estratégia mais ampla. O importante é deixar de pensar apenas naquilo que falta e começar também a trabalhar seriamente com aquilo que existe.
Há ainda um enorme potencial na comunidade bravense espalhada pelo mundo. Muitos emigrantes possuem conhecimentos, experiência profissional, capacidade financeira e redes de contactos que poderiam contribuir para projetos na ilha. Mas esse potencial precisa de organização e de mecanismos claros para poder ser mobilizado. A ligação entre a diáspora e a Brava não deve acontecer apenas através de remessas familiares. Pode também passar por investimento, conhecimento, formação e criação de oportunidades.
A questão colocada por Anildo Baptista Lobo é, portanto, muito mais profunda do que o futuro de uma única localidade. É uma reflexão sobre o futuro da própria Brava. Se os jovens mais preparados e ativos continuarem a sair, quem ficará para dinamizar a economia e renovar as comunidades? E se não forem criadas condições para que novos projetos surjam, como será possível inverter este ciclo? São perguntas que exigem respostas concretas, e não apenas discursos.
É preciso reconhecer também que a responsabilidade não pertence exclusivamente ao Governo ou à Câmara Municipal. A sociedade civil, empresários, emigrantes, associações comunitárias e os próprios cidadãos têm um papel importante. O desenvolvimento de uma ilha pequena exige cooperação e capacidade de mobilização. Mas as instituições públicas têm uma responsabilidade particular na criação das condições básicas para que essa mobilização possa produzir resultados.
No fundo, a questão não deve ser impedir os bravenses de partir, mas garantir que partir seja uma escolha e não uma necessidade. Uma pessoa deve poder sair para estudar, trabalhar ou conhecer novas oportunidades e, se quiser, encontrar condições para regressar. A Brava precisa de chegar a um ponto em que um jovem possa dizer: “Eu tenho uma oportunidade aqui e acredito que consigo construir o meu futuro aqui.” Porque quando uma terra consegue dar esperança à sua juventude, começa também a proteger o seu próprio futuro.
Anildo Baptista Lobo






















