A Brava precisa de uma ponte organizada com a sua comunidade emigrada
(...) A Brava é uma ilha pequena em território, mas enorme na dimensão da sua comunidade espalhada pelo mundo. Existem bravenses em diferentes países e continentes, vivendo realidades muito distintas, mas mantendo, de uma forma ou de outra, uma ligação afetiva, familiar, cultural e económica com a terra onde nasceram ou de onde vieram os seus pais e avós. Essa comunidade constitui uma das maiores riquezas humanas que a Brava possui e merece ser encarada como um verdadeiro património da ilha. (...)
Durante décadas, a emigração bravense desempenhou um papel fundamental na vida económica e social da ilha. Os emigrantes enviaram dinheiro para as famílias, construíram casas, apoiaram parentes, financiaram estudos, ajudaram instituições, participaram em actividades culturais e mantiveram, muitas vezes à distância, uma preocupação permanente com o desenvolvimento da sua terra. No entanto, é legítimo perguntar se a Brava está hoje a aproveitar devidamente todo o potencial existente na sua comunidade emigrada e se a comunidade está a entender os novos desafios imposta a Brava nos tempos que correm.
A questão vai muito além das remessas financeiras. Um emigrante não deve ser visto apenas como alguém que envia dinheiro para a família ou que regressa à ilha durante as férias. Entre os bravenses espalhados pelo mundo existem empresários, médicos, professores, engenheiros, técnicos, investigadores, agricultores, pescadores, profissionais de tecnologia, trabalhadores especializados e pessoas com décadas de experiência acumulada em diferentes áreas. Existe, portanto, uma enorme quantidade de conhecimento e competências que poderiam contribuir para o desenvolvimento da Brava.
É por isso que se torna cada vez mais pertinente discutir a criação, pela Câmara Municipal da Brava, de um Gabinete de Relação com os Emigrantes e a Diáspora Bravense. Não se trataria de criar simplesmente mais uma estrutura burocrática ou um gabinete destinado a receber imigrantes durante o verão. A ideia deveria ser muito mais ambiciosa: criar uma verdadeira ponte permanente entre a Câmara Municipal, a ilha e os bravenses espalhados pelo mundo, permitindo conhecer, organizar e mobilizar a comunidade em torno de objetivos de desenvolvimento.
O primeiro passo deveria ser conhecer melhor quem são os bravenses que vivem fora da ilha. Quantos vivem nos Estados Unidos, Portugal, Holanda, França, Luxemburgo, Itália, Senegal e outros países? Em que cidades estão concentrados? Que profissões exercem? Quantos possuem empresas? Quantos têm formação superior? Quantos estariam disponíveis para colaborar com projectos na Brava? Quantos têm interesse em investir? Sem respostas para estas perguntas, estaremos a falar de uma comunidade que conhecemos apenas de forma superficial.
Seria importante, por isso, criar uma base de dados organizada da comunidade bravense no exterior, naturalmente respeitando a vontade das pessoas e as regras de protecção de dados. Essa base poderia reunir informações como a localidade de origem na Brava, país e cidade de residência, área profissional, actividade empresarial, competências, interesses e disponibilidade para colaborar. Não seria simplesmente uma lista de nomes, mas um verdadeiro mapa humano da Brava no mundo, capaz de mostrar onde estão as pessoas e aquilo que podem oferecer à sua terra.
Uma iniciativa dessa natureza permitiria criar uma verdadeira Bolsa de Competências da Diáspora Bravense. Imagine-se uma situação em que a Câmara Municipal, uma escola, uma associação ou outra instituição da ilha necessita de conhecimentos especializados numa determinada área. Em vez de procurar imediatamente fora da comunidade, poderia consultar essa rede de profissionais bravenses espalhados pelo mundo. Poderia existir um engenheiro em Boston, um arquiteto em Lisboa, um especialista em tecnologia em Paris ou um profissional de saúde em outra cidade disposto a orientar, aconselhar ou colaborar com determinado projeto.
O gabinete poderia igualmente desempenhar um papel importante na aproximação dos emigrantes às oportunidades de investimento existentes na Brava. Muitos emigrantes têm vontade de investir na terra dos seus pais e antepassados, mas encontram dificuldades relacionadas com informação, burocracia, identificação de oportunidades e falta de acompanhamento. Uma estrutura municipal especializada poderia disponibilizar informações claras sobre oportunidades de investimento, legislação, terrenos, projetos, incentivos, sectores económicos e contactos institucionais, funcionando como uma primeira porta de entrada para quem pretende transformar uma ideia num projeto concreto.
A Brava poderia, inclusive, criar uma Carteira de Oportunidades de Investimento, identificando áreas com potencial de desenvolvimento, como turismo, agricultura, pesca, transformação de produtos locais, energias renováveis, economia digital, serviços e cultura. O objetivo não seria a Câmara escolher os investimentos privados, mas facilitar o acesso à informação e aproximar quem possui capital, conhecimento ou vontade de investir nas oportunidades existentes na ilha. Muitas vezes, o problema não é a falta de interesse dos emigrantes, mas a ausência de uma estrutura que faça a ligação entre esse interesse e a realidade local.
Outro aspecto fundamental é a participação das novas gerações. Existem filhos e netos de bravenses que nasceram e cresceram no exterior e que, apesar de muitas vezes manterem uma ligação emocional à Brava, podem estar cada vez mais distantes da realidade da ilha. Se nada for feito, essa ligação poderá enfraquecer com o passar das gerações. A Câmara Municipal, em parceria com associações e comunidades emigradas, poderia desenvolver programas de intercâmbio, visitas, voluntariado, iniciativas culturais e encontros de jovens, criando novas formas de aproximação entre essas gerações e a terra dos seus pais e avós.
Também seria importante criar um espaço permanente de diálogo entre a Brava e as suas comunidades no exterior. Um Fórum Mundial da Diáspora Bravense poderia reunir, presencialmente ou através das novas tecnologias, representantes das comunidades, empresários, profissionais, jovens e instituições. Esse fórum deveria discutir temas concretos, como economia, turismo, educação, saúde, cultura, juventude, tecnologia, agricultura, pesca e ambiente, procurando transformar as discussões em projetos, parcerias e compromissos concretos.
O município não precisa, naturalmente, fazer tudo sozinho. O papel do gabinete deveria ser sobretudo o de articular pessoas e instituições. Associações de emigrantes, organizações comunitárias, empresários, escolas, universidades, instituições públicas e organizações da sociedade civil poderiam fazer parte dessa rede. A força estaria precisamente na capacidade de juntar diferentes pessoas e entidades em torno de objetivos comuns, evitando que cada iniciativa funcionasse isoladamente e sem ligação com outras.
É também necessário mudar a forma como a própria ilha olha para os seus emigrantes. O emigrante não deve ser lembrado apenas quando chega à Brava, quando há uma festa, quando se precisa de apoio financeiro ou quando surge uma necessidade específica. A relação precisa ser permanente. Durante todo o ano deve existir uma porta aberta para o diálogo, para a participação e para a apresentação de ideias. Uma política moderna para a diáspora deve perguntar não apenas quanto o emigrante pode contribuir financeiramente, mas também que conhecimento possui, que experiência pode partilhar e de que forma gostaria de participar no futuro da sua terra.
Uma organização dessa natureza poderia ainda contribuir para fortalecer a identidade bravense no mundo. A comunidade espalhada por diferentes países possui associações, grupos culturais, igrejas, empresas, famílias e redes sociais que funcionam muitas vezes de forma independente. Se essas diferentes estruturas fossem conectadas numa rede mais ampla, seria possível criar uma comunidade muito mais forte e capaz de partilhar informações, oportunidades e iniciativas. A Brava deixaria de olhar para a emigração como comunidades isoladas e passaria a enxergá-la como uma grande rede global.
É importante, contudo, que essa proposta não seja transformada numa questão partidária ou numa iniciativa dependente de determinada administração municipal. A relação com a diáspora deveria ser uma política pública de longo prazo, independentemente de quem esteja à frente da Câmara Municipal. Os governos municipais passam, mas a ligação entre a Brava e os seus emigrantes permanece. Por isso, uma eventual estrutura deveria ter objetivos claros, regras de funcionamento, transparência e mecanismos de avaliação que permitissem medir os resultados alcançados ao longo dos anos.
A criação deste gabinete também poderia ajudar a construir uma nova imagem da Brava perante o mundo. Uma ilha que conhece a sua diáspora, que sabe onde estão os seus cidadãos, que conhece as suas competências e que possui canais permanentes de comunicação transmite uma imagem de organização e modernidade. Mais do que isso, transmite aos emigrantes uma mensagem de reconhecimento: vocês continuam a fazer parte da Brava, mesmo vivendo a milhares de quilómetros de distância.
A Brava enfrenta desafios que não podem ser ignorados: a dimensão reduzida do seu mercado, a distância, as dificuldades de transporte, a necessidade de criar oportunidades para os jovens e a necessidade de diversificar a sua economia. Nenhum gabinete conseguirá resolver sozinho esses problemas. Mas uma comunidade organizada pode contribuir para enfrentá-los de uma maneira diferente, porque parte da solução pode estar precisamente na rede humana que a ilha construiu ao longo de décadas através da emigração.
Não devemos, porém, cair no erro de pensar que organizar a diáspora significa organizar uma comunidade para pedir dinheiro. Uma relação saudável e moderna precisa ser baseada em parceria. O emigrante deve ser visto como cidadão, profissional, empresário, estudante, investidor, voluntário, mentor e parceiro. A Brava tem de oferecer também oportunidades de participação e não apenas apresentar necessidades. Só assim será possível construir uma relação baseada na confiança e no interesse mútuo.
Talvez seja necessário, portanto, mudar a própria definição daquilo que entendemos por Brava. A Brava não termina nas suas fronteiras geográficas. A Brava também existe em Boston, Providence, Lisboa, Roterdão, Paris, Luxemburgo, Dakar e em tantas outras cidades onde vivem famílias bravenses. Existe nas associações, nas casas, nas empresas, nas igrejas, nas universidades, nas festas, nas memórias dos mais velhos e nos sonhos dos jovens. Existe numa rede humana que ultrapassa largamente o tamanho físico da ilha.
O desafio está em transformar essa dispersão numa força organizada. A comunidade bravense emigrada já existe, está viva e possui recursos, conhecimentos, experiências e vontade. O que falta, em grande medida, é uma estrutura capaz de ligar esses pontos e criar oportunidades de cooperação. A Câmara Municipal pode assumir um papel importante nesse processo, não substituindo as associações nem os próprios emigrantes, mas funcionando como um ponto de articulação entre todos.
Por isso, a discussão sobre a criação de um Gabinete de Relação com os Emigrantes deve ser encarada com seriedade. Não como mais uma promessa, nem como uma estrutura simbólica, mas como parte de uma estratégia de longo prazo para conhecer, organizar e aproximar a comunidade bravense espalhada pelo mundo. A criação de uma Rede Mundial de Bravenses, uma Bolsa de Competências, uma plataforma de comunicação, uma carteira de oportunidades e mecanismos permanentes de participação poderiam ser passos concretos para transformar essa visão numa realidade.
A Brava possui um território pequeno, mas não precisa pensar pequeno. Uma ilha pode ter poucos quilómetros quadrados e, ao mesmo tempo, possuir uma comunidade espalhada por dezenas de países. O verdadeiro desafio está em transformar essa dimensão humana numa força organizada, participativa e capaz de contribuir para o futuro da ilha. Talvez esteja na hora de a Brava deixar de olhar para os seus emigrantes apenas como pessoas que vivem longe e começar a tratá-los como uma extensão da própria comunidade bravense, espalhada pelo mundo, mas ligada à mesma terra e a um futuro que pode ser construído em conjunto.
Moises Santiago
Bravanews






















