Estado da Nação da ilha Brava, o silêncio assustador do esquecimento e a urgência da dignidade
Na semana que no Parlamento irá ser apresentado o Estado da Nação, Bravanews, editorial, deixe aqui o sentimento dos bravenses residentes e emigrados sobre o estado de esquecimento e penúria em que se encontra a ilha de Nhô Tatai.
A Brava, pequenina em extensão e habitada por cerca de 5.000 almas, carrega nos ombros o peso sufocante de ser o território mais isolado de Cabo Verde. Sustentada pela pesca artesanal, por uma agricultura familiar de sequeiro que teima em resistir, pelo pequeno comércio e pelas vitais remessas da nossa generosa diáspora nos Estados Unidos e em Portugal, a ilha vive numa espécie de suspensão temporal. Apesar da sua beleza natural singular, do microclima agrícola abençoado e do potencial turístico latente, o cenário que se contempla é o de um abandono histórico acumulado, onde nem o investimento público nem a iniciativa privada parecem encontrar caminho.
Esse isolamento continuado gerou no coração do povo bravense um sentimento profundo de esquecimento e marginalização perante as prioridades do desenvolvimento nacional. Sem um mercado de trabalho capaz de absorver talentos e sem serviços públicos básicos a funcionar com o mínimo de eficiência, assistimos a uma sangria demográfica dolorosa. Os jovens, desprovidos de perspetivas e cansados de promessas não cumpridas, veem na emigração para a Praia ou para o estrangeiro a única saída possível. Se o Estado não intervier com urgência e visão estratégica, corremos o risco real de assistir ao esvaziamento irreversível de uma comunidade inteira.
O maior e mais crónico estrangulamento da ilha reside no seu sistema de transportes. O Porto da Furna, porta de entrada e saída da ilha, permanece inoperacional ou sob condições de risco extremo durante mais de 40 dias por ano devido ao mar de sudoeste, fruto de um quebra-mar curto que não consegue proteger a baía das vagas. Como se não bastasse a tirania do mar, a ilha dispõe apenas de duas a três ligações marítimas semanais com o Fogo e Santiago, pautadas por atrasos constantes e cancelamentos de última hora que deixam doentes, estudantes e mercadorias retidos em terra.
A operacionalidade do porto é, em si mesma, um monumento ao improviso. Com rampa Ro-Ro pouco adequada e sem gruas funcionais, a descarga de mercadorias é feita de forma rudimentar, num processo lento que encarece o preço do frete para valores vergonhosos — os mais altos do país. Além disso, desde a desativação do Aeroporto de Esparadinha em 1998, a Brava ficou dependente de um único meio. Quando a embarcação avaria, a ilha entra em situação de bloqueio total por semanas, cortando de forma inaceitável o direito constitucional de mobilidade de quem lá vive.
No sector da saúde, o panorama é igualmente desolador. O Centro de Saúde de Nova Sintra carece de um bloco operatório funcional, de equipamento de raio-X moderno e de laboratórios aptos a realizar exames essenciais. O corpo clínico restringe-se a médicos de clínica geral, registando-se a ausência absoluta de especialistas em áreas básicas como Pediatria, Ginecologia ou Cirurgia.
Perante uma urgência médica, o doente bravense fica refém da sorte e da meteorologia, dependendo de evacuações marítimas para São Filipe ou para a Praia. Quando o mar se revolta e impede a navegação, o socorro atrasa-se e vidas humanas perdem-se por falta de assistência atempada. A somar a esta tragédia diária, a farmácia pública sofre rupturas frequentes de medicamentos essenciais e a população idosa, cada vez mais numerosa, não encontra no sistema qualquer acompanhamento geriátrico especializado.
A escassez de água na Brava atinge proporções de uma verdadeira crise estrutural. Sendo uma das ilhas com maior stress hídrico do arquipélago, a Brava depende da incerteza das chuvas e de nascentes em iminente ameaça de diminuição de caudal. Povoações de zonas altas como Mato Grande, Mato, Nossa Senhora do Monte e Cachaço chegam a passar meses consecutivos sem uma gota de água nas torneiras, sobrevivendo à custa de autotanque e do esforço comunitário.
A tão propalada unidade dessalinizadora de água do mar, prometida como a salvação do abastecimento, continua retida nos corredores da burocracia governamental, pois aguarda-se pela resolução do problema de excesso de manganês. Ao mesmo tempo, o saneamento básico é uma ilusão para cerca de 60% das famílias bravenses. Em zonas da Furna e da própria Nova Sintra, os esgotos correm a céu aberto, configurando um atentado à saúde pública e à dignidade humana que não pode continuar a ser ignorado.
Economicamente, a Brava encontra-se paralisada por um desemprego jovem que ultrapassa os 40%. A pesca artesanal, pilar da identidade local, definha pela ausência de infraestruturas de frio e de produção de gelo, impedindo a conservação do pescado e obrigando os pescadores a vender a sua produção a preços de saldo antes que se estrague.
Na agricultura, o cenário repele a iniciativa privada: produtos de excelência como a banana, a papaia e as hortícolas apodrecem nos campos porque os agricultores não conseguem suportar as taxas absurdas de frete marítimo nem confiar em horários de escoamento. Sem indústria, sem hotéis de dimensão adequada e com um comércio asfixiado pelos custos de transporte, os jovens com formação superior não encontram motivos para regressar. As remessas dos emigrantes continuam a garantir a sobrevivência diária das famílias, mas não substituem o desenvolvimento produtivo de que a ilha precisa.
No domínio da educação, a ilha limita-se a oferecer o ensino até ao 12.º ano. Quem ambiciona a formação universitária é forçado a abandonar a ilha rumo a Santiago ou São Vicente, algo que a maioria das famílias de parcos recursos simplesmente não consegue financiar, ceifando talentos antes mesmo de poderem florescer.
Mesmo no ensino secundário, na Escola Eugénio Tavares, a carência de professores em disciplinas fundamentais como Física, Química ou Inglês é uma constante, motivada pela fraca atratividade e isolamento da ilha. A juntar a isto, a internet nas escolas é deficiente e a oferta de formação profissional técnica é praticamente nula, deixando a juventude sem ferramentas para os desafios da economia moderna.
O sector da energia reflete as mesmas contradições. Os cortes no fornecimento elétrico são frequentes, em particular no verão, prejudicando o comércio e a conservação de alimentos. A central elétrica de Favatal continua a depender exclusivamente do combustível fóssil, produzindo energia cara e poluente que encarece a fatura das famílias.
O projeto de instalação do parque solar fotovoltaico de 1 MW, que traria energia limpa e custos reduzidos, arrasta-se sem explicação há anos. Sem energia estável e acessível, torna-se impossível viabilizar unidades de frio para o peixe, bombagem eficiente de água ou qualquer pequena indústria transformadora.
Na habitação e no ordenamento do território, a incúria pública volta a deixar marcas. Faltam habitações sociais para apoiar os novos casais, enquanto o património arquitetónico do centro histórico de Nova Sintra se vai deteriorando por falta de incentivos à reabilitação.
Ao mesmo tempo, famílias continuam a viver em zonas de elevado risco geológico, sem que haja planos concretos de realojamento. Os instrumentos de planeamento urbanístico estão desatualizados, bloqueando potenciais investimentos e impedindo uma expansão urbana harmoniosa e segura.
O turismo, tantas vezes apontado como o salvador das economias insulares, permanece na Brava como um potencial desperdiçado. A ilha tem tudo para triunfar no ecoturismo, nos trilhos de montanha e no turismo cultural, mas falta-lhe a infraestrutura primária: não existe um único hotel de média dimensão, os trilhos carecem de sinalização e manutenção, e a Furna não dispõe de uma gare marítima digna para receber quem chega.
Além de tudo isto, a ausência de transporte aéreo impede a captação de fluxos turísticos de maior rendimento e inviabiliza a integração da Brava nos circuitos turísticos da vizinha ilha do Fogo. Sem acessibilidades, o turismo continuará a ser apenas um discurso de intenções sem reflexo na economia local.
O resultado de todos estes factores é uma realidade social trágica: a Brava perdeu 18% da sua população desde 2010, quase um terço dos seus habitantes tem mais de 60 anos e a taxa de pobreza atinge 43% da população, a mais elevada do país. Três em cada quatro jovens assumem abertamente o desejo de sair da ilha.
É tempo de levar ao Parlamento medidas concretas e imediatas. É urgente financiar a ampliação do quebra-mar da Furna, garantir por contrato quatro ligações semanais subsidiadas com o Fogo e Santiago, equipar o bloco operatório do Centro de Saúde ou construir um novo centro de saude. É fundamental desbloquear a central dessalinizadora, implementar o parque solar, criar uma linha de crédito para o frio na pesca e isentar de IVA o frete marítimo dos produtos com origem ou destino na Brava.
A Brava não está a pedir favores ou caridade; exige apenas igualdade de direitos e o cumprimento dos princípios constitucionais de coesão territorial. O povo bravense é de uma dignidade e de um trabalho exemplares, e a sua vasta diáspora está pronta para investir assim que o Estado garanta o básico. Continuar a ignorar o grito de socorro da Brava por mais cinco anos é decretar a morte lenta de uma ilha, transformando-a definitivamente num lar de idosos à espera da próxima remessa financeira.
Moises Santiago
26 de Julho de 2026
























