CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CMB, ÀS AUTORIDADES RELIGIOSAS DA PARÓQUIA DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DO MONTE E À COMUNIDADE - PELA PRESERVAÇÃO DA NOSSA IDENTIDADE, HISTÓRIA E FÉ

Dirigimo-nos com profundo respeito, mas com igual firmeza e preocupação, às autoridades eclesiásticas, aos órgãos do poder local e a toda a comunidade da Freguesia de Nossa Senhora do Monte. Movidos pelo amor incondicional às nossas raízes, escrevemos esta carta aberta com o intuito de lançar pontes, esclarecer ambiguidades e defender o património espiritual e cultural que nos foi legado pelos nossos antepassados.

Aug 18, 2026 - 11:51
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CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CMB, ÀS AUTORIDADES RELIGIOSAS DA PARÓQUIA DA FREGUESIA DE NOSSA SENHORA DO MONTE E À COMUNIDADE - PELA PRESERVAÇÃO DA NOSSA IDENTIDADE, HISTÓRIA E FÉ

Senhor Presidente da Câmara Municipal, líderes religiosos e comunidade da Freguesia de Nossa Senhora do Monte, a fé de um povo não se constrói de um dia para o outro; é o resultado do entrelaçar contínuo de memórias, devoções e tradições que atravessam gerações. Na nossa freguesia, essa identidade sempre esteve ancorada na imagem, no culto e na devoção a Nossa Senhora da Graça, uma presença espiritual que moldou a vida de quem aqui reside e de quem, mesmo distante, transporta esta terra no coração.

Recentemente, fomos confrontados com uma onda de descontentamento e perplexidade perante a tentativa de sobrepôr ou alterar a denominação da nossa padroeira para Nossa Senhora do Monte. Esta situação tem gerado divisões e mágoa no seio da comunidade, algo que consideramos profundamente lamentável, dado que a Igreja e as instituições locais deveriam ser o garante da união e da concórdia entre todos.

É imperioso e urgente esclarecer as confusões que se têm vindo a adensar na opinião pública e no seio da vida paroquial. É crucial compreender que as duas imagens — Nossa Senhora da Graça e Nossa Senhora do Monte — são profundamente distintas na sua iconografia, no seu contexto hagiográfico e no seu significado espiritual. Cada uma carrega a sua identidade própria, e confundi-las é desrespeitar o valor histórico e religioso de ambas.

A história e o quotidiano da nossa comunidade falam por si. Ao longo de décadas, e até onde a memória dos mais antigos consegue alcançar, a celebração e o culto da nossa gente foram prestados à imagem de Nossa Senhora da Graça. É diante da sua efígie, das suas vestes tradicionais e da sua presença acolhedora que o povo se ajoelha para pedir e agradecer.

Essa presença visual é absolutamente inequívoca e está gravada na retina de cada paroquiano. A imagem venerada na nossa igreja ostenta as cores tradicionais azul e branco, que simbolizam a pureza e a graça, distinguindo-se claramente de qualquer outra representação mariana. Estas cores são o símbolo visível de um compromisso de fé que atravessa séculos.

Mais do que uma memória abstrata, esta tradição está documentada nos próprios alfaias e paramentos litúrgicos da paróquia. O próprio opa pastoral, utilizado com dignidade nas cerimônias e procissões formais, traz bordada a imagem e os símbolos de Nossa Senhora da Graça. Como é possível, então, ignorar os símbolos materiais que a própria paróquia usou e validou ao longo dos anos?

Apesar de a designação administrativa do território ser "Freguesia de Nossa Senhora do Monte", a vida comunitária e a devoção do altar sempre bateram ao ritmo de Nossa Senhora da Graça. Pretender alterar esta devoção profunda com base numa mera coincidência ou simplificação toponímica é desconsiderar a sensibilidade dos fiéis e a verdade histórica do local.

Esta discrepância tem sido sentida com particular dor pela nossa vasta comunidade de emigrantes. Homens e mulheres que deixaram a sua terra natal em busca de melhores condições de vida levam consigo, como farol e consolo, a devoção a Nossa Senhora da Graça. Ver a sua referência espiritual alterada à distância causa um sentimento de desamparo e desrespeito pelas suas origens.

O desabafo recente do nosso conterrâneo Alberto Santos, nas redes sociais, é apenas o reflexo e o eco da voz de centenas de fiéis que se sentem magoados. Quando os paroquianos expressam indignação, não o fazem por espírito de contradição ou por vontade de gerar conflito, mas sim por um dever moral de proteger o património imaterial que lhes pertence por direito de herança espiritual.

Uma comunidade católica e uma freguesia sólida não se constroem através do apagamento da sua história, mas sim através da valorização das suas raízes. A tentativa de impor uma designação que não corresponde à imagem secularmente venerada gera confusão litúrgica e afasta os crentes, criando um clima de estranheza onde deveria haver celebração e paz.

Não podemos permitir que a falta de esclarecimento continue a alimentar divisões, levando a que uns celebrem sob a invocação de Nossa Senhora da Graça e outros sob a de Nossa Senhora do Monte. Esta dualidade não enriquecida, mas sim conflituosa, enfraquece o tecido social e mina a confiança dos paroquianos nos seus líderes comunitários e religiosos.

Por tudo isto, apelamos ao bom senso, à sensibilidade e à abertura ao diálogo por parte da Paróquia e dos dirigentes locais. Pedimos que seja promovida uma escuta atenta da população e dos historiadores locais, de forma a reconhecer e oficializar, sem ambiguidades, o valor indiscutível de Nossa Senhora da Graça como a imagem e a padroeira afectiva e histórica do nosso povo.

A preservação da nossa identidade não é um ato de teimosia; é um ato de amor e de responsabilidade para com as gerações futuras. Para que os nossos filhos e netos saibam quem fomos, no que acreditámos e que tradições honrámos, precisamos de manter viva a verdade do nosso património e a dignidade das nossas veneradas imagens.

Concluímos este apelo reassegurando a nossa vontade de colaborar para uma solução digna, pacífica e respeitadora da história da nossa terra. Esperamos que esta carta seja recebida como um convite à reflexão e à união, para que, sob o manto protetor de Nossa Senhora da Graça, possamos caminhar juntos na preservação da nossa fé, da nossa cultura e do nosso património.

MS