O "Cancro Verde" de Palhal, acácia americana devora campos de cultivo e ameaça o sustento de famílias
Cidade de Nova Sintra, 21 de Maio de 2026 (Bravanews) - A paisagem na localidade de Palhal está a mudar, e não é para melhor. Onde antes o olhar alcançava o horizonte limpo preparado para as sementeiras de sequeiro, ergue-se agora uma muralha de ramos retorcidos e picos acerados. A acácia americana deixou de ser apenas uma árvore resiliente para se tornar o principal inimigo dos agricultores locais, que assistem, impotentes, à "asfixia" das suas terras.
Para os agricultores do Palhal, a luta contra a natureza tornou-se uma guerra desigual. A acácia americana (Robinia pseudoacacia ), uma espécie exótica com uma capacidade de adaptação agressiva, encontrou no solo desta região o habitat perfeito para se expandir.
O problema atingiu proporções críticas: em muitas propriedades, a densidade da vegetação é tão elevada que já não é possível passar com instrumentos ou animais. Os pequenos produtores, que dependem das chuvas sazonais para cultivar o milho e o feijão, veem o seu espaço de manobra reduzido a pequenos retalhos de terra que o mato ainda não conquistou.
Os principais danos identificados pela comunidade incluem a erosão do solo e perda de nutrientes, pois a planta absorve a humidade profunda, deixando a superfície demasiado seca para culturas tradicionais, a inutilização de infraestruturas isso porque caminhos de acesso a terrenos e pastagens foram bloqueados pela densidade dos arbustos e perigo para o gado, porque além de reduzir o pasto disponível, os espinhos longos provocam ferimentos graves nos animais que tentam penetrar no mato.
A revolta da população não se deve apenas à invasão biológica, mas ao que chamam de "inércia burocrática". Segundo os líderes comunitários, foram enviadas diversas missivas e realizados pedidos verbais junto dos serviços municipais e do Ministério da Agricultura. A resposta, porém, tem sido inexistente.
"Nós não temos meios para combater isto sozinhos. Cortamos hoje com o machado e amanhã nascem dez ramos novos. É preciso maquinaria pesada, é preciso um plano do Governo. Sentimo-nos abandonados à nossa sorte", afirma Manuel dos Santos, agricultor que viu a sua área cultivável reduzida à metade em menos de três anos.
A comunidade argumenta que, sem uma intervenção pública que utilize métodos de erradicação profunda (como o arranque das raízes com retroescavadoras), o Palhal perderá toda a sua capacidade produtiva em menos de uma década.
Para além da agricultura, a invasão da acácia começa a ter contornos de segurança pública. A espessura do matagal junto às zonas habitadas tem servido de esconderijo e propiciado a proliferação de pragas, além de dificultar a visibilidade em certas vias de acesso secundárias.
Os agricultores locais estão a ponderar a organização de um abaixo-assinado para exigir uma resposta formal das autoridades. O objetivo é claro: garantir que o Plano de Ordenamento do Território inclua uma verba específica para a limpeza e recuperação de solos invadidos no Palhal.
Enquanto a ajuda não chega, os homens e mulheres do Palhal continuam a sua vigília diária, olhando com apreensão para os campos onde o verde da acácia teima em apagar a esperança de uma colheita farta.






















