Operação Shark. Director do HUAN fornecia químicos para ampliar quantidade de cocaína

Investigações do Ministério Público, conduzidas pelo procurador Nilton Moniz, identificam o médico Odair Carvalho, actual director do Hospital Universitário Agostinho Neto, como colaborador activo no fornecimento de instruções e substâncias para aumentar a quantidade da cocaína de Neneya, a ser depois vendida a retalho. Saiba ao detalhe como a rede funcionava e quem faz parte.

Nov 5, 2026 - 18:41
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Operação Shark. Director do HUAN fornecia químicos para ampliar quantidade de cocaína

“De acordo com os regis￾tos de chamadas ocorridas em Abril e Junho de 2017, Neneia  solicitava directamente a esse profissional de saúde substâncias anestésicas em pó utilizadas no meio médico e odontológico para cortar e aumentar o volume da cocaína”, escreve o Ministerio Publico no processo de investigação que esta terça-feira culminou na detencao de mais de 20 individuos suspeitos de pertencerem a uma rede de trafico de droga supostamente liderada pelo empresario Emanuel ‘Neneya’ dos Santos.

O documento sublinha que “numa das conversações interceptadas, o clínico admitiu ter procurado o produto na empresa estatal Emprofac sem êxito, prometendo delinear pessoalmente uma ‘estratégia melhor’”. 

Passado alguns meses, “o líder do grupo solicitou a mesma intervenção médica com vista à aquisição de Fentanil para cortar cocaína. Em complemento, a organização adquiria sacos de produtos de corte a fornecedores particulares como Flávio, negociando lotes de 50 gramas a dezenas de milhares de escudos”.

A investigação do MP revela uma organização criminosa com infiltrações em serviços alfandegários, corporações policiais, estabelecimentos prisionais e no sector da saúde pública. Mais, segundo revelou esta quinta-feira, 5, o jornal A Nação,  havia um “audacioso” plano de evasão prisional, orçado em largos milhões de escudos, desenhado para recuperar um “tesouro oculto” estimado em cerca de duzentos milhões de euros em dinheiro vivo e estupefacientes. 

O MP destaca ainda Ikem Lawrence Ibeziako (Kross), cidadão nigeriano, apontado como suposto braço direito de Neneya na importação de carregamentos e na articulação dos carregamentos de substâncias ilícitas destinadas a Cabo Verde.

Segundo consta da investigação do Ministério Público, o agente Emílio Borges (York) mantinha, alegadamente, contactos directos com o cabecilha, solicitando valores monetários, combustível e estupefacientes em troca da anulação de autos de contra-ordenação e da devolução de documentos apreendidos a viaturas ao serviço da rede. 

“Numa das situações registadas em Março e Abril de 2026, o agente insistiu na entrega de quantias em dinheiro para satisfazer despesas particulares, combinando encontros discretos nas imediações de postos de combustível fora da viatura de serviço”, conta, por sua vez, o A Nação, citando o documento do MP.

“No mesmo sentido, a agente Jaqueline Soares (Txuna), afecta à Direcção-Geral dos Transportes Rodoviários (DGTR), tratava pessoalmente com o chefe da rede da emissão ilícita de guias de circulação temporária para viaturas desprovidas de legalização, recebendo em contrapartida compensações económicas e ofertas directas”, enfatiza. 

O grupo, continua o semanário da Cidadela, contava ainda com a colaboração do assistente de bordo Nilton Silva (Silva Piloto), “consumidor habitual que adquiria cocaína à rede e concedia favores no transporte inter-ilhas e internacional, tendo inclusivamente adquirido uma viatura automóvel que antes servira a organização para o transporte clandestino”.

“No interior da Cadeia Central da Praia, um conjunto de agentes prisionais actuava como elo de ligação e abastecimento”. O agente António Correia (Santinho), segundo o documento, “foi repetidamente referenciado na introdução fraudulenta de aparelhos telefonicos, somas em dinheiro e outros bens destinados a reclusos a mando de Neneia. 

Nesse esquema estarao tambem envolvidos os guardas Gilberto Tavares, Claudino Tavares (Dino) e o técnico prisional Mamadou Morais (Alai Morais)”.


Plano de fuga


“Encontrando-se preso na sequência das operações de Julho de 2026, Neneia arquitectou, em articulação estreita com a sua esposa Solangela (Sú), um plano meticuloso para concretizar a fuga do recluso José Ramos Gomes, conhecido pela alcunha de Polícia de Casa Lata”.

A missão, prossegue o documento, “entregue ao futuro fugitivo era de extrema relevância para a cúpula: resgatar um esconderijo secreto onde o grupo criminoso mantinha guardada uma avultada reserva de estupefacientes e nada menos que duzentos milhões de euros em numerário. 

“Entre os implicados no esquema contavam-se o subchefe prisional Claudino Tavares (Dino), os agentes prisionais Nuno Andrade Varela e Felisberto Sanches Varela (Txuputi), além de elementos no exterior como Luís Futida e os ex-reclusos Eder Semedo (Burrutxu) e Erickson Monteiro (Arroz)”, realça.