Nossa Senhora do Monte encravado entre o aumento do fosso social em relação a São João Baptista e a saudade de um passado de glória

Nossa Senhora do Monte, outrora à freguesia de maior referência na ilha Brava, parece viver hoje entre as recordações de um passado de afirmação e as incertezas de um presente marcado pelo abandono, pela perda de serviços essenciais e pela ausência de perspectivas claras de desenvolvimento. Aquilo que já foi motivo de orgulho para os seus habitantes parece transformar-se, gradualmente, numa memória distante, enquanto outras localidades consolidam a sua centralidade na vida administrativa e social da ilha.

Nov 5, 2026 - 18:17
 0  67
Nossa Senhora do Monte encravado entre o aumento do fosso social em relação a São João Baptista e a saudade de um passado de glória

A inevitável comparação com São João Baptista, sede do município e centro administrativo da Brava, torna-se cada vez mais evidente. Não se trata de alimentar rivalidades entre localidades, nem de diminuir a importância de São João Baptista. Trata-se de reconhecer que o desenvolvimento equilibrado de uma ilha exige que nenhuma comunidade seja condenada à marginalização. Quando o fosso entre localidades aumenta, a questão deixa de ser apenas geográfica e passa a ser também social, econômica e política.

A ausência de uma estação dos Correios em funcionamento é um dos sinais dessa perda de serviços e proximidade institucional. Num território insular, onde as distâncias, a mobilidade e o acesso aos serviços públicos continuam a representar desafios, a falta de estruturas básicas tem consequências concretas na vida quotidiana dos cidadãos, sobretudo dos mais idosos e daqueles que não dispõem de meios próprios de transporte.

Mais preocupante ainda é a situação das infraestruturas de saúde. A inexistência de um posto sanitário em condições dignas levanta questões sobre o acesso aos cuidados primários, a prevenção e o acompanhamento da população. Não é aceitável que uma comunidade tenha de enfrentar dificuldades acrescidas para obter cuidados básicos, especialmente quando a população envelhece e as necessidades de assistência médica tendem a aumentar.

Também o estado de degradação da escola merece uma reflexão séria. Uma escola não é apenas um edifício onde se ensina e aprende. É um símbolo de esperança, de permanência e de futuro. Quando as condições físicas de um estabelecimento de ensino se deterioram, a mensagem transmitida à comunidade é preocupante: que importância estamos a atribuir à educação e às próximas gerações?

A ausência de uma Delegação Municipal representa outro vazio institucional. Uma comunidade não pode depender permanentemente de deslocações à sede do município para resolver questões que poderiam ser tratadas localmente. A proximidade dos serviços municipais não é um luxo administrativo, mas uma forma de garantir participação, eficiência e respeito pelos cidadãos. A descentralização começa precisamente onde o poder público se aproxima das pessoas.

Entretanto, há um fenómeno silencioso, mas profundamente preocupante: a saída progressiva dos jovens. Sem oportunidades de emprego, sem iniciativas económicas consistentes e sem condições que estimulem a fixação de novas famílias, Nossa Senhora do Monte corre o risco de perder uma parte significativa da sua capacidade de renovação. Os jovens partem à procura de oportunidades, e os que ficam enfrentam a difícil tarefa de construir um futuro num território com poucas alternativas.

O envelhecimento da população agrava ainda mais este cenário. Casas que outrora acolhiam famílias numerosas são hoje habitadas por idosos, enquanto muitas outras permanecem fechadas durante grande parte do ano. A perda de população não representa apenas uma diminuição estatística: significa menos dinamismo económico, menor procura de serviços, enfraquecimento das relações comunitárias e um risco crescente de despovoamento.

É neste contexto que a saudade do passado ganha força. Mas não podemos viver eternamente das glórias de ontem, nem transformar a memória numa desculpa para aceitar a realidade de hoje. Nossa Senhora do Monte precisa de um novo compromisso com o seu futuro: reabilitação das infraestruturas, recuperação dos serviços públicos, valorização do património, incentivo à atividade económica, criação de oportunidades para os jovens e uma estratégia concreta para atrair pessoas e investimentos.

A pergunta que se impõe é simples: que lugar queremos reservar a Nossa Senhora do Monte no futuro da ilha Brava? O seu passado merece respeito, mas a sua população merece mais do que recordações. Merece serviços, dignidade, oportunidades e atenção institucional. O desenvolvimento da Brava não pode ser medido apenas pelo que acontece em São João Baptista, mas pela capacidade de garantir que todas as suas localidades tenham condições para viver, crescer e prosperar. Porque uma ilha só se desenvolve verdadeiramente quando nenhuma das suas comunidades fica para trás.

MS