Junto ao telefone, repousava a "Bíblia" das comunicações da época: a Lista Telefónica.
Aquele livro grosso continha os
números de todas as pessoas e empresas de Cabo Verde. Mas, no que tocava à nossa Ilha Brava, a secção era fininha, poucas folhas que se contavam pelos dedos. Eu, na minha curiosidade de menino sem internet, conhecia aquelas páginas de cor e salteado. Tinha os nomes decorados de A a Z.
Quando o tédio batia à porta e o meu pai se ausentava, o telefone virava o meu brinquedo proibido. A minha diversão favorita? Passar trotes.
Abria a lista, escolhia a "vítima" do dia, ligava, gozava um pouco e desligava na cara. Era um jogo de poder e anonimato. Uma traquinice que eu achava inofensiva.
No meio daquela lista de nomes familiares, havia um que sempre me chamava a atenção, por ser único na ilha: "Palmira".
Era a nossa vizinha. Uma senhora já de idade, doce, que tinha colocado o telefone em casa com um único propósito sagrado: ouvir a voz do filho que vivia longe, nos Estados Unidos.
A minha mente infantil escolheu-a como alvo. Liguei. Mas naquele dia, o diabo da traquinice soprou-me mais forte ao ouvido e decidi ir longe demais. Não me limitei a uma piada boba. Com uma voz disfarçada, soltei a bomba:
— "O seu filho teve um acidente de carro na América. Está no hospital."
Do outro lado, não ouvi gritos, nem choro. Ouvi algo muito pior: o silêncio.
De repente, a linha ficou muda. Um silêncio pesado, gélido, que atravessou o fio e me gelou a espinha.
O medo tomou conta de mim. E se lhe tivesse dado um ataque? E se a mentira tivesse matado a velha senhora? A culpa fez-me largar o telefone e correr. Como morávamos perto, fui a voar até à casa dela. Inventei a desculpa perfeita para a visita inesperada: ia comprar agulhas de coser, já que ela vendia elásticos, tecidos e outras "encomendas da América".
Entrei em casa dela com o coração na boca.
Por sorte — ou por intervenção divina —, encontrei um senhor ("Frank di Lu") que tinha chegado antes de mim. Ele estava ao lado dela, tentando acalmá-la, dizendo que aquilo devia ser engano, que talvez não fosse verdade. Ela estava pálida, com o olhar perdido, agarrada àquela angústia que eu mesmo tinha plantado.
Comprei a agulha com as mãos a tremer, baixei a cabeça para esconder a vergonha e saí de lá a carregar um peso que nunca mais esqueci.
Naquele dia, o telefone deixou de ser um brinquedo para mim.
Aprendi, da pior maneira, uma lição que carrego para a vida: as palavras têm peso e a distância não diminui a dor que podemos causar. Descobri que não podemos brincar com o coração dos outros, principalmente com o coração de uma mãe que vive de saudades. A tecnologia serve para encurtar distâncias, nunca para criar abismos.
Daquele dia em diante, nunca mais passei um trote. A agulha que comprei nunca coseu nada, mas serviu para remendar o meu caráter.
Nota do Autor:
A "Dona Palmira" desta história era a saudosa e querida Nha Maninha.
Hoje, homem feito, sei que já é tarde para lhe pedir perdão, mas fica aqui a minha homenagem e o meu sincero pedido de desculpas, onde quer que ela esteja.
Descansa em paz, Nha Maninha.
Quem mais se lembra da importância da Lista Telefónica? E quem já se arrependeu amargamente de uma "brincadeira" de criança?
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