Brava: Perdas de entes queridos – a dor que nunca acaba principalmente para aqueles que não se despediram

  • 02/01/2020 04:49

A morte é algo que todos aguardamos por ela, mas há mortes que “espantam” os familiares e deixam-nas com um “buraco” sentimental pelo resto da vida.

Na noite do dia 31 de Dezembro de 2018, a ilha Brava ficou marcada pelo desaparecimento, no mar, de dois irmãos, na localidade de Braga, surpreendidos por uma onda, durante uma habitual pesca.

Aguinaldo Martins, 23 anos, e Adilson Martins, 28 anos, foram pescar na companhia do primo Paulo de Pina e somente regressou à casa com vida o Paulo Pina, enquanto o corpo do Aguinaldo foi encontrado dias depois pelas autoridades, mas o do Adilson até hoje não houve sinal.

Passado um ano, a Inforpress procurou os seus familiares para ver como estão e qual o sentimento reinante, principalmente nesta época que para a maioria das família é de festa.

Celeste da Veiga, mais conhecida por Tchitchi, mãe dos dois indivíduos desaparecidos, confessou não “nada a contar”, porque ela ficou a mercê do que lhe contaram, com o “desespero e a falta” que os seus filhos lhe fazem.

Segundo a mesma, a saudade é “enorme” e passado um ano, ainda chora os seus filhos todos os dias, pois estes queriam-lhe “bem”.

“Brincávamos muito. Éramos amigos uns dos outros, dentro da nossa humildade, mas éramos felizes”, desabafou esta mãe, acrescentado que Deus tomou-lhes, lamentando o facto de ser todos de uma vez.

Questionada se estes avisaram-na da saída para o mar, ela recordou que na véspera tinham anunciado que pretendiam ir ao mar. E, ao amanhecer, continuou, o mais pequeno foi pastorar a sua vaca, voltou, tomaram o pequeno-almoço e ela estava na sala, quando perguntou o marido por eles e este respondeu-lha que já tinham saído.

O que mais lamenta, entre choros, é o facto de eles saírem sem ao menos dizer adeus ou pedirem a habitual bênção, mas também a dor de não ter encontrado o corpo do filho mais velho, para levá-lo à sua última morada, como foi feito com o Aguinaldo.

Conforme esta mãe, ela tinha cinco filhos e estes dois eram os “pés e as mãos” desta família.

Após a morte dos filhos, realçou que o seu esposo tem sofrido muito com problemas de saúde, ajuntando que, há pouco tempo, passou cinco dias internada e um dia depois, “rastejando com os pés”, teve que ir trabalhar.

Em termos de apoios, ressaltou que recebem um apoio de um emigrante nos Estados Unidos da América, no valor de 5000 em géneros alimentícios, numa loja na Brava, e alguns outros emigrantes que na época do desaparecimento apoiaram com roupas e outras coisas.

Mas no dia-a-dia, além dos 5000 escudos, depende do rendimento do marido, mesmo sem saúde.

Esta disse que ficou “mais chocada”, após o desaparecimento de um outro indivíduo, no passado dia 17 de Dezembro, de nome Paulino da Graça, de 41 anos, da localidade de Santa Bárbara, o que levou-a a recordar, de forma “mais profunda e intensa”, a sua dor e “implorando” ao seu sobrinho que não vá ao mar nesta época.

Paulo Veiga de Pina, o único sobrevivente desta tragédia, diz relembrar este dia com “muita dor, mágoa e tristeza”.

Este adiantou que tem tentado recuperar, mas confessou que “não tem sido fácil”, pois, estes dois primos eram como irmãos para ele e em todos os lugares que vai ele vê a imagem deles na sua memória.

Realçou que ele e o Aguinaldo sempre pescavam nesta área, porque não tinham trabalho fixo, mas o Adilson, “como era mais esperto”, entendia de outras áreas, por isso não os acompanhava na faina.

Mas, neste dia, recordou, “ele cismou em ir com connosco” e lá foram, “sem pensar que poderia acontecer tal tragédia”.

Após esse acontecimento, Paulo afirmou que abandonou de vez a pesca e tem procurado outros meios de sobrevivência, uma vez agora não “não sente bem” quando o assunto é mar.

MC/JMV

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