As cores, o tambor e a saudade, pois A Ilha da Brava celebra o São João e o Dia do Município
Cidade de Nova Sintra, 24 de Junho de 2026 (Bravanews) – Hoje é dia de São João. Junho é o mês em que o pulsar da ilha da Brava se torna mais forte, ritmado pelo som dos tambores e pelas vozes que entoam as coladeiras de São João. A celebração do Santo Padroeiro, que coincide com o Dia do Município a 24 de junho, transforma a "Ilha das Flores" no epicentro cultural de Cabo Verde, atraindo centenas de emigrantes, visitantes de outras ilhas e curiosos que procuram vivenciar uma das festas mais autênticas e ricas do arquipélago.
A história do São João na Brava confunde-se com a própria identidade do povo bravense. Introduzida pelos colonizadores portugueses, a devoção ao Santo Batista ganhou contornos únicos na ilha, fundindo elementos religiosos europeus com a matriz cultural e rítmica africana. Ao longo dos séculos, a festa deixou de ser apenas um acto de fé para se tornar o maior símbolo de coesão social da ilha, resistindo ao isolamento geográfico e alimentando a ligação umbilical entre os que ficam e os que partem.
As celebrações não se limitaram ao dia 24; estenderem-se por semanas num programa que mistura o sagrado e o profano. O ritual do "Pilão" é um dos momentos mais emblemáticos e ancestrais, onde homens e mulheres se juntam para moer o milho ao ritmo do tambor, preparando a base para o xerém e outros pratos tradicionais que serão servidos gratuitamente a todos os presentes. O mastro, erguido e enfeitado com produtos da terra, doces e frutas, ergue-se como um monumento à fartura e à partilha, sendo posteriormente disputado num ambiente de enorme algazarra e alegria.
No plano religioso, a missa solene em honra a São João Baptista e a imponente procissão pelas ruas floridas de Nova Sintra reúnem milhares de fiéis. O cortejo é um mar de promessas pagas, vestes brancas e vermelhas, e preces silenciosas, num contraste harmonioso com a energia dos "Sanjoanistas" que, logo a seguir, tomam as ruas com o tradicional desfile dos cavaleiros, cujas montadas exibem orgulhosamente as cores e os adornos da festa.
O Dia do Município serve também de pretexto para o tradicional "retorno a casa". Por esta altura, o Porto da Furna regista o seu movimento mais alto do ano. Navios carregados de passageiros trazem de volta os filhos da terra radicados nos Estados Unidos da América e na Europa, além de turistas nacionais e estrangeiros. Para a comunidade emigrada, a visita é uma peregrinação anual obrigatória, uma oportunidade para matar as saudades da família, reviver as tradições da infância e investir temporariamente na economia local, que conhece nesta época o seu período de maior dinamismo.
A autarquia local e as associações comunitárias aproveitam a moldura humana para promover festivais de música, feiras de gastronomia, actividades desportivas e colóquios, elevando o São João da Brava a um evento de interesse turístico nacional. Mais do que uma simples festa calendarizada, o 24 de junho na Brava é a reafirmação de um povo que, mesmo disperso pelo mundo, encontra na sua ilha e na sua cultura a força para manter vivas as suas raízes mais profundas.
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