Esta análise visa desconstruir, sob uma perspetiva de Ciência Política e Gestão Pública, os fatores que contribuem para a fragilidade atual do PAICV, contrastando-os com o modelo de liderança alternativo que poderia ter sido representado por Nuías Silva.
1. A Erosão da Legitimação Institucional
A crise do PAICV manifesta-se primariamente na legitimação da sua liderança. A eleição interna de Francisco Carvalho não conseguiu gerar a coesão partidária necessária, resultando num quadro de facciosismo pós-eleitoral. Este défice de união é agravado por três vetores críticos:
1.1. A Judicialização da Política e o Risco Reputacional
O envolvimento do Presidente do Partido em confrontos judiciais (constituição como arguido em processos de gestão municipal) representa um caso paradigmático de judicialização da política. Este fenómeno desvia o foco do debate programático para a esfera penal, impondo um risco reputacional sistémico ao PAICV.
"O PAICV não pode permitir que o debate eleitoral seja capturado por um processo judicial individual. Um Partido com a sua história não pode reduzir o seu projeto coletivo à defesa permanente de um dirigente..."
A manutenção de um líder sob escrutínio judicial fragiliza a autoridade moral do partido para fiscalizar o Governo e sustentar discursos sobre probidade e ética pública. Num Estado de Direito, a presunção de inocência é um pilar jurídico, mas a legitimidade política exige um padrão ético superior ao mínimo legal, comprometendo a perceção de governabilidade futura.
1.2. Comunicação Política: Informalidade e Tática de Vitimismo
A estratégia de comunicação da liderança atual tem sido marcada por linguagens informais e o recurso a táticas de vitimismo político. Esta abordagem, que alguns críticos designam como "patetices políticas", pode ser interpretada como uma tentativa de mobilização das bases através de uma narrativa de cerco ("perseguição política"). Contudo, esta tática aliena o eleitorado flutuante e o centro político, que valorizam a maturidade institucional e a gravitas do discurso. A incapacidade de lidar com o contraditório sem recorrer à vitimização projeta uma imagem de imaturidade que contrasta com a história do PAICV como "Partido de Estado".
2. Nuías Silva: O Modelo de Liderança Tecno-Gerencial
O cenário alternativo, com Nuías Silva na liderança, oferece um contraste analítico significativo. Silva representa um modelo de liderança tecno-gerencial, assente em três pilares que mitigariam as fragilidades atuais do PAICV:
2.1. Capital Humano e Executivo
Com formação em Engenharia e Gestão Industrial, Silva possui um capital humano que se traduz em competência executiva comprovada. O seu sucesso na gestão da Câmara Municipal de São Filipe, culminando numa reeleição por maioria qualificada, serve como um ativo político tangível. Este histórico permite-lhe enquadrar o debate eleitoral no domínio da Gestão Pública e da eficácia administrativa, desafiando o MpD no seu próprio terreno
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2.2. Coesão e Ética Institucional
A sua postura de unificação partidária ("A minha ala é o PAICV") e a ausência de processos judiciais conferem-lhe um capital ético e institucional que a liderança atual não possui. Sob Silva, o PAICV recuperaria a autoridade moral para liderar o discurso sobre transparência, reposicionando-se como uma alternativa de governança séria e previsível.
A crise do PAICV não é meramente conjuntural, mas sim estrutural, decorrente de uma falha na gestão do capital político e na cultura organizacional do partido. A liderança atual, ao permitir a judicialização e adotar uma comunicação de trincheira, compromete a sua credibilidade institucional e a sua capacidade de se apresentar como uma alternativa de governança viável.
Nuías Silva, com o seu perfil de gestor, a sua integridade ética e a sua capacidade de unificação, representa o modelo de liderança que o PAICV necessita para reverter o cenário desfavorável das sondagens. A sua ascensão à liderança teria permitido ao partido chegar a 2026 com um discurso de Estado renovado, focado na competência e na transparência, transformando o PAICV de uma força de protesto numa alternativa de governo credível e preparada. A não escolha deste modelo de liderança pode ser interpretada, a posteriori, como um erro político determinante que hipotecará as hipóteses de alternância democrática em Cabo Verde.