Professor Djick Oliveira prepara-se para entregar ao público seu legado literário
O professor, músico e intelectual cabo-verdiano, Djick Oliveira, prepara-se para entregar ao público o resultado de 20 anos de escrita terapêutica e afectiva, almejando a publicação de três obras inéditas este ano.
Aos 82 anos, o multifacetado professor, músico, judoca e intelectual, Djick Oliveira, prepara-se para transformar duas décadas de escrita íntima em legado público.
Após mais de meio século dedicado a formar gerações na cidade da Praia, ao ensino e à cultura em Cabo Verde, o autor anunciou, em entrevista à Inforpress, a publicação de três obras inéditas para 2026, memórias ficcionadas, uma noveleta popular em versos, sobre motivos de uma “finaçom”, em co-autoria com Nha Gida Mendes e um conjunto de palestras sobre temas da música cabo-verdiana.
Entre o rigor académico e a escrita encarada como “terapia”, Henrique Teixeira Oliveira, conhecido carinhosamente como "Djick", abre o seu universo particular para partilhar um património literário que amadureceu ao ritmo do tempo e que agora procura o encontro definitivo com o leitor, provando que a imortalidade habita tanto no coração dos alunos quanto nas páginas que agora deixam de ser apenas suas.
Segundo o “professor por vocação, músico por alma e judoca por disciplina”, hoje, reformado das salas de aula, mas “nunca do pensamento”, a escrita nunca foi uma urgência comercial, mas sim uma função terapêutica.
Assim, dedica-se a polir o que chama de seu encontro consigo mesmo, uma produção literária guardada a sete chaves que começa agora a ganhar o caminho das gráficas, aguardando financiamento.
“Não tenho pressa, porque essa escrita cobre um percurso de cerca de 20 anos de trabalho”, revela o autor, com três livros prontos para publicação, e 2026 surge no horizonte como o ano em que o público poderá, finalmente, aceder ao seu universo ficcional e biográfico.
Entre as obras mais aguardadas está o “Dicionário de Memórias Sensíveis e Alguns Nomes Próprios”, longe de ser uma biografia tradicional, o livro apresenta “memórias ficcionadas”, vivências reais transmutadas pela literatura, onde o autor realça o que as experiências significaram para a sua formação humana e intelectual.
Outro destaque é a sua incursão pela poesia popular com a noveleta em versos intitulada "Priska Koria co Papaxinho Bera", recolhido e publicado por Tomé Varela.
Trata-se de uma obra ambiciosa que abrange mais de 90 estrofes e narra uma história de paixão entre um proprietário e uma camponesa.
Demonstrando o seu rigor académico e sensibilidade linguística, Djick preparou três versões desta novela, sendo a versão original (Alupec), outra versão em crioulo tradicional e outra, ainda, integralmente em português, visando ampliar o círculo de leitores e facilitar o acesso à obra.
Com a promessa de publicações para 2026, Djick Oliveira prova que, como um fruto que amadurece sem pressa, a sua literatura está pronta para ser colhida, oferecendo aos leitores uma parte do “mundo infinito de gente” que ele carrega dentro de si.
O professor Djick que “intelectualizou” muito a sua profissão, a sua ligação à música, por outro lado, não é apenas prática.
Além de ter sido fundador da Escola Cimboa, ele compilou os seus anos de ensino e investigação em um terceiro volume, uma série de palestras sobre a música cabo-verdiana, com foco especial na Morna.
Há ainda um trabalho de fôlego realizado para a Caixa Económica, que celebra a identidade musical de Cabo Verde, as raízes do batuque e a "finaçom".
Este projecto, que inclui CD e uma antologia de poesia, poderá ser transformado em e-book, levando o rigor da sua pesquisa ao formato digital.
Ao ser questionado, novamente, sobre o legado que deixa para Cabo Verde após mais de 50 anos dedicados à cidade da Praia e ao ensino, Djick Oliveira responde com a serenidade de quem cumpriu a missão.
"O legado está entregue. Estarei vivo no coração de cada um que conviveu comigo", reiterou.
Sobre a morte, fala com a sabedoria de um filósofo, e encara-a como um "acontecimento sábio" e necessário, embora confesse a angústia afectiva da despedida.
Inforpress/Fim
















