LIVRO: A verdadeira e única história da Cabo Verde Fast Ferry

  • 03/12/2020 11:00

ASSINATURA DO CONTRATO DE AQUISIÇÃO DAS EMBARCAÇÕES COM OS ESTALEIROS DA DAMEN

LIVRO: A verdadeira e única história da Cabo Verde Fast Ferry

No capítulo 11, ficámos a saber que, no dia 24 de julho de 2009, concluímos uma campanha de angariação de fundos, uma operação que injetou mais de quinze milhões de euros, tudo para que o projeto da Cabo Verde Fast Ferry fosse realmente uma realidade. Alguns dias mais tarde, o valor foi depositado nas contas bancárias da CVFF e o levantamento foi através da Bolsa de Valores. Convém salientar que o valor angariado na Bolsa de Valores foi utilizado única e exclusivamente na aquisição dos dois navios da CVFF. Para um projeto que foi planeado a longo prazo, era mais do que evidente que precisávamos de estabelecer uma parceria com um construtor que nos transmitisse confiança, que tivesse um historial de longevidade e sucesso no negócio da construção de embarcações comprovado no mercado internacional. Felizmente, encontrámos esse parceiro nos Estaleiros Navais Damen, uma referência que está no mercado desde 1927.

Quando começámos a estabelecer essa parceria, a companhia Damen dispunha de mais de 30 estaleiros espalhados pelo mundo fora e contava com cerca de 6.700 trabalhadores. No ano de 2009, a Damen Shipyards teve uma receita na ordem de 1,4 mil milhões de euros. A mesma tinha uma carteira de negócios extremamente diversificada e especializada no que diz respeito a navios rápidos, rebocadores, navios cargueiros, embarcações de patrulha, navios de cargas, dragas, mega-iates e embarcações navais, ou seja, uma empresa completa no seu ramo. Além disso, tinham sido pioneiros da construção naval modular com base em delineações padronizadas, pelo que a técnica deu aos estaleiros a capacidade de oferecer embarcações bem feitas, com prazos de entrega muito curtos e a preços bastante competitivos. Além de construções de raiz, a Damen também fazia manutenção e reparação de embarcações e uma vasta gama de outros tipos de serviços marítimos, pelo que podia assumir a responsabilidade de conceber, construir e entregar os nossos ferries, através de um balcão único de compras.

Para ser sincero, nos estaleiros navais da Damen, encontrámos um parceiro que podia combinar uma engenharia exemplar com a força da experiência logística e de gestão global, assegurando, desta forma, à CVFF, um projeto para adaptação de docas. Mas a informação sobre a personalização e adaptação de docas para o projeto da CV Fast Ferry, estará de forma mais detalhada nos próximos capítulos.

Uma vez que o projeto CVFF ganhou força, tudo aconteceu tão rapidamente, o que foi um alívio para mim, pessoalmente. Quando anunciámos aos executivos da Damen que o projeto tinha sido já financiado, os engenheiros passaram a trabalhar 24 horas por dia, numa verdadeira “task force”. Os mesmos tiveram de desdobrar-se para, rapidamente, finalizar as especificações detalhadas de construção para os trabalhadores do estaleiro. Agendámos a data de assinatura do contrato de aquisição para o dia de 25 de setembro de 2009, na Holanda.

No dia anterior, Nelson, Didino e eu estávamos com viagem programada para partir às 20H00 do aeroporto de Logan, em Boston, na companhia aérea KLM. Nelson foi mais cedo, mas Didino e eu encontrámo-nos em Braintree para apanhar o autocarro expresso que ligava o sul de Boston ao aeroporto. O tráfego, porém, estava tão engarrafado que, quando chegámos, infelizmente, tinham acabado de encerrar o check-in e perdemos o nosso voo. Tentámos desesperadamente embarcar noutro avião, mas não conseguimos comprar bilhetes no aeroporto. Felizmente, lembrámo-nos de ligar a Tony Neves, que teve de sair de casa, numa hora já inconveniente, e ir à sua agência emitir bilhetes para viajarmos na Iceland Air, que partiu na mesma noite, às 22H00. Graças à Agência Neves Travel, conseguimos viajar no mesmo dia, mas em vez de chegarmos de manhã, chegámos a Amesterdão no início da tarde. Dado ao atraso, saímos do aeroporto diretamente para sede da Damen Shipyards, para a assinatura.

Do contrato constava, em parte, uma compra de dois navios rápidos Damen 4512, de acordo com a especificação relevante assinalada [231659 SPEC DFF 4512] e o número do plano de arranjo geral [231659-000-001 GA DFF4512]. Os navios marítimos são inspecionados por "classification societies", que são entidades independentes devidamente acreditadas, responsáveis pela certificação e classificação de navios com base na estrutura, conceção e normas de segurança. As embarcações deviam ser construídas nas dimensões e características exatas, indicadas nas Especificações, e sob a estreita supervisão da parte de Bureau Veritas , uma das sociedades de classificação mais conceituadas do mundo. O envolvimento da BV no processo de construção, forneceu-nos uma garantia adicional de que os navios CV Fast Ferry seriam reconhecidos com um símbolo distintivo de qualidade no que diz respeito às certificações HULL , MACH , High Speed Craft - Cat A , Sea Area 3 , AUT-UMS . As embarcações deveriam ser entregues com dois meses de intervalo e o contrato foi dividido em seis prestações, sendo a sexta e última prestação a ser paga antes do embarque do LIBERDADI com destino a Cabo Verde.

A fim de proteger os nossos estudos e despesas à volta de todo o processo de investigação, acrescentámos, com sucesso, uma cláusula que, durante um período de 3 anos após a entrega dos ferries, a Damen não podia vender o mesmo modelo de navios a terceiros no mercado de navios rápidos de Cabo Verde. Mas, na mesma senda de proteção, a Damen, por sua vez, acrescentou uma cláusula segundo a qual, a CVFF não estaria a cumprir o contrato (suas obrigações) caso:

- CVFF não pagasse à Damen o montante total de qualquer uma das seis prestações, na data estipulada;

- CVFF recusasse a entrega dos navios, sem justificação plausível;

À medida que vai viajando connosco, não se esqueça dessas cláusulas, pois são de se levar em devida conta, devido aos anos tempestuosos que serão vistos nos próximos capítulos.

Após a assinatura do contrato, no início da noite, juntámo-nos a Friso Visser, o vendedor, Henk van Herwijnen, o gestor de serviços e Ronald Boerman, o gestor do projeto, para um jantar de celebração. Foi uma reunião descontraída. Mas, para mim, um prazo de 18 meses para a entrega foi uma preocupação que não me saia da cabeça. Para ser sincero, estava mais interessado em falar do que em jantar, pelo que aproveitei todas as oportunidades, a ponto de, entre cada dentada, lembrar ao Friso que precisávamos das embarcações o mais cedo possível e também reforcei que os fundos angariados na Bolsa de Valores eram exclusivamente para comprar as duas embarcações. Como podem ver, sequer consegui degustar o meu jantar, uma vez que todo o meu pensamento estava centrado na data de entrega das embarcações. Finalmente, valeu o sacrifício, o de não ter conseguido comer em paz pois, no final da noite, consegui assegurar, com sucesso, o compromisso de que a Damen entregaria as embarcações em Cabo Verde e que os custos de transporte seriam faturados e pagos numa data posterior. Afinal, os estaleiros navais da Damen tinham acabado de investir dois milhões de euros em CV Fast Ferry, conforme descrito no capítulo 11. Portanto, ceder um crédito na qualidade de fornecedor para o transporte de KRIOLA e LIBERDADI não seria um problema. Como sempre faço questão de realçar, mais do que uma empresa construtora, a Damen foi, sem sombra de dúvidas, um grande parceiro da CVFF.

O contrato de aquisição foi assinado e regressámos a Cabo Verde para transferir o pagamento da primeira prestação, conforme o estipulado. Ao mesmo tempo, o estaleiro naval em Singapura tinha estado a preparar-se para a construção dos dois ferries, o que começou em novembro de 2009.

Continue a viajar connosco pelas águas de CV, porque no próximo capítulo, iremos acompanhar a fase de construção dos navios mais lindos e seguros de que CV alguma vez já teve. Vamos, igualmente preparar e planear as próximas questões ligadas a operação e manutenção bem-sucedidas dos navios, mas iremos também destacar um especial evento, que é o grande lançamento do KRIOLA nas águas de Singapura, pela primeira vez, em outubro de 2010.