Presidencia da Republica MENSAGEM DE ANO NOVO: POR UMA SOCIEDADE DA AMIZADE E DA BEM-AVENTURANÇA

  • 31/12/2022 16:16

O PR fala, na sua última comunicação à Nação a marcar o fim de 2022 e arranque de 2023, sobre o que foram os desafios do ano que ora finda e aborda as expetativas para 2023, a sublinhar a necessidade de maior diálogo e mais união entre os cabo-verdianos e de maior entendimento no seio da classe política, para fazer aos desafios de 2023, ainda sob o signo de uma “policrise”, com os seus nefastos efeitos, sobretudo, nas famílias com menos posses.

Sobretudo, o PR Neves realça a sua confiança na capacidade e resiliência do cabo-verdiano para vencer os desafios deste novo ano que ora inicia.

Veja, na íntegra, a mensagem do PR, ou se preferir, leia a versão escrita, mais em baixo.

Caboverdianas e caboverdianos,
Passado pouco mais de um ano da minha posse, estou, de novo, a celebrar convosco um Novo Ano com o sentimento de que é possível juntos renovarmos a esperança num Cabo Verde muito melhor para todos.

A minha saudação é extensiva à laboriosa e dedicada diáspora caboverdiana, reconhecendo o facto de se mostrar sempre presente e generosa, especialmente nestes anos que têm sido de variados desafios para os irmãos residentes nas ilhas, e o de afirmar-se, hoje mais do que nunca, como fonte de ideias e de inspiração para o processo de modernização do nosso país. Deixo igualmente umas palavras de simpatia para com todos os cidadãos estrangeiros que escolheram estas ilhas para viver e trabalhar, bem como o apreço pelo corpo diplomático residente e representantes dos organismos internacionais, pela sua amizade e solidariedade.

Ao longo deste período pude constatar de perto a real dimensão das dificuldades, em visitas que efetuei às ilhas e aos municípios.

O ano que ora finda foi difícil e o desejo de todos é o de que 2023 seja bem melhor, apesar das incertezas que ainda persistem quanto ao futuro.

Estamos a encerrar um ano que entrou já sob o signo de uma policrise, com um feixe enorme de problemas atrelado. Destaco a pandemia e os seus efeitos devastadores, tanto sociais, económicos, sanitários ou políticos, com perdas muito profundas, e nunca antes imaginadas, que se traduziram em mais desemprego, pobreza, desigualdade e exclusão social. E como se não bastasse, a deflagração de conflitos, com destaque para a guerra na Ucrânia, fez disparar o custo da energia e condicionou as cadeias de abastecimento, com o consequente aumento dos preços dos alimentos.

Mas o quadro só ficaria completo se a nossa visão abarcasse também as mudanças climáticas e as suas severas consequências, nomeadamente para o nosso arquipélago, bem como o retrocesso nas democracias, em alguns países. A interação entre estas diferentes crises tem como resultado um mundo mais precário, mais disruptivo e de aparente caos, com evidentes reflexos num pequeno país como é o caso de Cabo Verde. Mas a nossa conhecida esperança e a já demonstrada capacidade de resiliência, que nos permitiram enfrentar e vencer as diferentes crises, como as secas, fomes e mortandades, também nos ajudarão a superar esta conjuntura adversa.

Conhecendo a têmpera do caboverdiano, cuja história se assemelha a uma corrida de obstáculos, sabemos que terá recursos de energia suficientes para enfrentar esta crise. Iremos recorrer às reservas morais e intelectuais para superar mais este desafio, como tem sido ao longo da nossa existência como povo e Nação.

Porém, temos que conceder que os tempos atuais vão exigir profundas mudanças. E quero crer que, face às atuais circunstâncias, todos – principalmente os atores políticos – saberão ser mais sensíveis aos fenómenos que o país enfrenta neste momento. Isto significa disponibilidade para o diálogo e consensos entre as lideranças e as forças políticas para aperfeiçoar o funcionamento e proteger as instituições da República, de forma a garantir maior normalidade, melhorando o desempenho dessas instituições.

A hora é de mobilização geral, o que não se compadece com a excessiva politização, pois, qualquer desperdício seria pernicioso para o país, afetando particularmente a recuperação da economia. Impõe-se a criação de uma sociedade da amizade, em que os diferentes partidos políticos, os colegas de trabalho, os vizinhos, todos, possam viver em paz e harmonia e se entendam. Há que evitar a erosão das instituições na certeza de que uma sociedade dividida e com crispações não avança.

Espero que esta quadra festiva e o chamado “espirito de Natal” sejam bons conselheiros para conseguirmos estes propósitos, nomeadamente, rever a forma de fazer política, mudar o relacionamento entre o Estado e a Sociedade Civil, inovar em matéria de políticas públicas e na busca de consensos com vista a uma maior e melhor partilha de poder, e ser mais célere e sofisticado, com mais qualidade nas decisões. Talvez resida aqui a diferença entre um país maduro, avançado e moderno, e um país subdesenvolvido.

Vivenciamos uma situação de emergência económica e social e é nesta altura que a nossa atenção se deve dirigir para as famílias que hoje enfrentam maiores dificuldades, por serem vítimas de uma divisão desigual de oportunidades e de rendimentos. O Estado tem um compromisso indeclinável para com os mais pobres. Complementarmente, e lá onde o Estado não chega, cabe às ONG’s, Sociedade Civil e cidadãos em geral, canalizar os esforços para contribuir para que ninguém fique para trás.

Numa conjuntura de enormes desafios face ao incremento da pobreza e das desigualdades, temos que reconhecer e saudar o excelente trabalho dos atores sociais que não têm poupado esforços para, através da sua ação benemérita e de fraternidade, levar um pouco de solidariedade àqueles que mais precisam, principalmente nesta época festiva.

Isto constitui uma mensagem de que na nossa sociedade ainda prevalecem os sentimentos de amor ao próximo, empatia, generosidade e capacidade de doar. O nosso desejo é o de que o ansiado crescimento económico seja materializado, e que seja igualmente portador de desenvolvimento, beneficiando prioritariamente aqueles que hoje enfrentam a situação de extrema vulnerabilidade e de insegurança alimentar.

Faço votos para que este Novo Ano seja portador de mais paz, harmonia, civilidade e segurança, e que consigamos dar um bom combate à violência urbana, com destaque para a cidade da Praia. Cabo Verde é a terra da morabeza e todos os seus cidadãos e visitantes devem poder desfrutar de um clima de tranquilidade.

Deixo um apelo para que se debruce à volta das causas e do que estará na génese da escalada da violência urbana, refletir sobre o que terá falhado ou que correu menos bem. Isto sempre na certeza de que, em diversos graus, existe uma corresponsabilidade quanto à atual situação, e que devemos concentrar as ações nas medidas preventivas ao invés de uma atitude reativa e de resultados muito questionáveis.
Registo com agrado e realço o exemplo de jovens que, no passado, participaram em gangs armados, estiveram em conflito com a lei e foram presos, mas que se recuperam e hoje mudaram de vida e de lado, estando nos seus bairros a liderar outros jovens, mas desta vez com bons exemplos e boas ações.

É importante fazer tudo para consolidar as instituições do Estado de Direito Democrático, com realce para o aperfeiçoamento, maior sincronização e reforço das capacidades dos órgãos encarregados da administração da justiça, da segurança e do combate à criminalidade. A nossa atenção deverá igualmente recair sobre a recorrente situação de morosidade da justiça e a sensação de impunidade.

Os órgãos de comunicação social e a Sociedade Civil devem ganhar vigor e autonomia para desempenharem melhor o seu papel. As Universidades, como centros de saber, são chamadas a estabelecer uma relação de proximidade com a comunidade onde se encontram inseridas, interagindo, investigando e ajudando a discernir as melhores respostas para os problemas.

Temos que conhecer bem a realidade, com profundidade, para estarmos capacitados a tomar as medidas adequadas. Caso contrário estaríamos a agir com base em perceções e “achismos”, criando narrativas e proclamações que podem não corresponder à realidade dos factos.

Temos a oportunidade de, neste ano de 2023, com muito trabalho e abnegação, abertura de espírito e disponibilidade para o diálogo, amor à terra e vontade de realizar o bem comum, construir o Cabo Verde que queremos.

Termino, enviando um grande abraço de morabeza e renovando os votos de que este Ano Novo traga a todos mais saúde e bem-aventurança, mais paz e segurança, mais qualidade de vida e que consigamos unidos vencer com sucesso os árduos desafios que temos pela frente.

Um Próspero Ano Novo!