80$00 DI TXIPESA (O Dia em que corri mais que o autocarro)

Setembro de 1999. O ano em que o mundo temia o "Bug do Milénio", mas eu, um rapazinho de 15 anos saído da Ilha Brava, tinha um medo muito mais real: morrer de fome na capital. ​Fui estudar para a cidade da Praia, hospedado na Residência Estudantil Madre Teresa de Calcutá, em Achada Santo António. Éramos cerca de 80 estudantes, uma verdadeira Torre de Babel de sotaques de várias ilhas. No meio daquele caldeirão, apenas dois bravenses: eu e o meu amigo Adelmar.

Jan 18, 2026 - 17:24
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80$00 DI TXIPESA (O Dia em que corri mais que o autocarro)
A adaptação foi dura. Longe da proteção da mãe, descobri que a selva de betão tinha regras próprias. A principal era sobre a comida. Tínhamos três refeições diárias, sim, mas a lei era clara: quem chega primeiro, serve-se melhor.
​Aprendi isso da pior maneira. No refeitório, o prato habitual era o famoso "arroz malandro". No menu dizia que era de peixe, mas devia ser um peixe campeão de esconde-esconde, porque no prato ninguém o via.
​Era preciso ter fé.
​Se eu piscava os olhos para fazer o sinal da cruz antes de comer, quando abria, a única isca de atum que boiava no caldo já tinha voado para o prato do colega do Tarrafal. Ali, aprendi que cada grão de arroz conta e que o peixe era um mito urbano.
​Veio o Natal e, com ele, o regresso à Brava. O paraíso! Comida de verdade, o cheiro do mar, o carinho da família. Mas as férias acabam e, em janeiro, o regresso à Praia fez-me chorar. Mas desta vez, eu ia preparado. Jurei a mim mesmo: "Fome? Nunca mais!"
​A minha bagagem parecia a de um refugiado de guerra, mas de guerra gourmet. Levei tudo: latas de camoca (o ouro em pó), bolos secos, sacos de bolacha... um verdadeiro arsenal. E, claro, o meu piano, porque um homem não vive só de pão, também precisa de arte (e de impressionar as meninas, claro).
​A viagem no navio Sotavento foi a odisseia habitual. Aquele barco não navegava, ele pedia licença ao mar, lento como uma tartaruga com reumatismo. Deitado no convés, olhava as estrelas, filósofo, a pensar no meu futuro académico. O meu momento zen era interrompido apenas pelo coro das senhoras foguenses ao lado, que a cada balanço do navio gritavam num tom de ópera trágica:
​— "Aiiiii nha má! Aiiiii nha pá!" — seguido de uma "golfada" que desafiava a gravidade. Poesia pura em alto mar.
​Chegado à Praia, fiquei uns dias na casa da tia Amélia. Na segunda-feira, dia de ir para o Lar, fiz as contas. Eu tinha: uma mochila gigante nas costas, uma bolsa de mão pesada, a bolsa sagrada da comida (lata de camoca incluída) e o piano.
​Olhei para o táxi: 100 escudos.
Olhei para o autocarro: 20 escudos.
​A minha mente de contabilista falido fez o cálculo rápido: "Se for de autocarro, poupo 80 escudos. 80 escudos são 4 dias de lanche com pão e doce na porta do liceu."
​A "txipesa" venceu a lógica.
​Esperei o autocarro. Quando ele parou, já vinha a abarrotar. Entrei, e foi aí que a minha presença se fez notar. Não pelo piano, mas pelo cheiro. A lata de camoca não estava bem vedada. O aroma inconfundível de milho torrado e açúcar espalhou-se pelo ar condicionado natural das janelas abertas.
​As pessoas começaram a farejar.
— "Kuse ki sta txera sima funji?" — perguntou uma senhora senegalesa.
​Eu, encolhido, fingi que era perfume francês.
​O motorista, já sem paciência para o meu "tetris" de malas no corredor, ordenou:
— "Menino, bota essas cargas lá fora, na bagageira lateral!"
​Obedeci. Coloquei o meu precioso piano e a bolsa vital da camoca na barriga do autocarro. Fiquei com a mochila nas costas e a outra bolsa na mão. A viagem seguiu até à paragem da Escola Técnica. Era a minha descida. O autocarro parou, uma multidão saiu. Eu desci, ajeitei a mochila, respirei fundo e virei-me para ir buscar as coisas à bagageira.
​Mas o motorista devia estar com pressa para almoçar. Ouviu o sinal.
Tssssss. Portas fechadas.
E depois... ZUSSS!
​Arrancou.
​O meu piano. A minha camoca. A minha vida.
Tudo a desaparecer numa nuvem de fumo preto.
​Não pensei. Foi instinto de sobrevivência misturado com desespero.
A mochila pesada saltava-me nas costas, batendo na nuca a cada passada. A bolsa de mão balançava como um pêndulo assassino.
​Corri.
​Corri como um louco. Corri como um cão atrás de uma moto. Corri como se o próprio diabo me quisesse roubar o lanche.
​A cena deve ter sido linda para quem estava no passeio. Um garoto magrinho, carregado como um burro de carga, a sprintar pela Achada Santo António, gritando para um autocarro:
​— "Ei! Para! O meu piano! A minha camocaaaaaa!"
​O suor escorria-me pela testa, a mochila parecia pesar uma tonelada, mas a visão de ficar sem comida por um trimestre deu-me superpoderes.
​Felizmente, 300 metros à frente, junto à Capelinha, o autocarro parou para largar passageiros. Cheguei lá quase a cuspir o pulmão, vermelho como um tomate, a arfar. O motorista olhou-me pelo retrovisor, sem a mínima emoção, enquanto eu, trémulo, resgatava os meus bens.
​Recuperei tudo. O piano estava intacto. A camoca estava salva.
​Mas ali, sentado no passeio a tentar recuperar o fôlego, aprendi uma lição valiosa de economia: por causa da "txipesa" de querer poupar 80 escudos, gastei 300 escudos de sola de sapato, perdi 2 litros de suor e passei uma vergonha que, se houvesse YouTube na altura, hoje eu seria um meme mundial.
​Afinal, o barato saiu caro... e cansativo!
​Dizem que rir é o melhor remédio (e sai mais barato que o táxi).
Se esta minha desgraça te fez sorrir, partilha! E já agora, marca nos comentários aquele amigo que também correria uma maratona por uma lata de camoca!