A Dieta de promessas reaquecidas, ilha Brava na Ementa de Ulisses

A Ilha Brava não é um prato de sobras, mas o Governo de Ulisses Correia e Silva, candidato à sua sucessão, insiste em servir-nos restos.

May 14, 2026 - 18:18
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A Dieta de promessas reaquecidas, ilha Brava na Ementa de Ulisses

Há uma arte quase poética no cinismo político de Ulisses Correia e Silva. O Primeiro-Ministro e candidato do MpD a sua sucessão parece ter desenvolvido uma confiança inabalável na amnésia coletiva dos bravenses. Após uma década sentado no cadeirão do poder na Varzea, Ulisses regressa à "Ilha das Flores" com a mesma desenvoltura de quem acabou de chegar de uma viagem de descobrimento, trazendo na bagagem as mesmas promessas mofadas, agora embrulhadas em papel brilhante de campanha. É o cúmulo do reaquecimento político: pegam-se nas falhas de ontem, temperam-se com um pouco de retórica de "desenvolvimento" e servem-se como se fossem produtos frescos colhidos esta manhã.

O Milagre Arquitetônico, de um  Centro de Saúde que desafia a gravidade

O anúncio do novo Centro de Saúde da Brava merece um prémio de prestígio internacional, mas não nos campos da medicina ou da gestão pública; a sua categoria é, inequivocamente, a de Ficção Científica. Assistimos, entre o atónito e o divertidamente indignado, a um projeto que parece ter sido concebido por uma "engenharia reversa" política absolutamente inédita no mundo moderno: o edifício que está a ser construído pelo teto.

É uma metáfora deliciosa — embora tragicamente cara — para a governação de Ulisses Correia e Silva na ilha. Na cosmologia do MpD, a física funciona de forma diferente. Primeiro, ergue-se com estrondo a cobertura mediática; depois, instala-se o telhado das ilusões, feito de materiais leves como o marketing de campanha e promessas ocas. As fundações, as paredes mestras e, principalmente, o recheio essencial — como médicos especialistas, equipamentos de diagnóstico e oxigénio — esses ficam reservados para uma próxima década, algures num futuro utópico que teima em nunca atracar no Porto da Furna.

Na Brava de Ulisses, a saúde não é um direito humano fundamental, mas um detalhe meramente ornamental. É algo que se resolve, na cabeça dos estrategas da Praia, com o lançamento de uma "primeira pedra" que, de tanto ser carregada de palanque em palanque, já deve estar gasta, polida pelo uso excessivo em vésperas eleitorais.

Enquanto o povo espera por uma ambulância que funcione ou por uma evacuação que não dependa do humor das marés e da sorte, o Primeiro-Ministro oferece o seu melhor ângulo para as câmaras da TCV. O sorriso é de circunstância, o discurso é de "modernização", mas o cheiro que paira no ar não é o de cimento fresco: é o cheiro a mofo de uma promessa que já apodreceu na prateleira.

Construir pelo teto é, afinal, a especialidade deste Governo: manter a cabeça nas nuvens da propaganda enquanto os pés dos bravenses continuam enterrados na lama do esquecimento. O centro de saúde pode não ter paredes, mas tem um "design" político impecável: é transparente, invisível e totalmente imune à realidade dos factos. É o milagre da multiplicação das pedras fundamentais que, curiosamente, nunca se transformam em paredes reais.

O navio fantasma e a odisseia do isolamento

E que dizer do eterno "Navio Dedicado" para a linha Fogo/Brava? Francisco Tavares, ex-presidente da CMB prometeu por duas vezes e agora Ulisses Correia encontrou com esta solucao o caminho para as índias. Esta embarcação já se tornou uma lenda urbana, um "Flying Dutchman" das águas de Cabo Verde que todos ouvem falar, mas que ninguém — absolutamente ninguém — acredita que vá algum dia materializar-se sob esta gestão.

A Estratégia é promover um navio específico para quebrar o isolamento.

A execução será de  manter a ilha à mercê de escalas erráticas, cancelamentos de última hora e uma logística que faria um navegador do século XV chorar de desespero.

O Sarcasmo,  precisa-se,  tendo uma "boa vontade" de ferro para não rir quando o candidato Ulisses fala em conectividade marítima após dez anos a ver a Brava definhar atrás de um horizonte de promessas náuticas que nunca saem do estaleiro das intenções.

O Banquete dos Enganados, pois o golpe está ai, cai quem quer

Dez anos depois, o balanço é claro: a Brava foi usada como cenário para fotografias de campanha, enquanto os problemas estruturais foram empurrados com a barriga. Ulisses Correia e Silva não vem trazer soluções; vem testar os limites da paciência de um povo que ele claramente considera ingênuo.

Requentar promessas antigas e apresentá-las como banquete de luxo é um insulto à inteligência de quem vive as dificuldades do dia a dia. É o oportunismo elevado ao estado de arte: criar o problema pela inacção durante uma década e depois aparecer, em vésperas de votos, vestido de salvador da pátria com a mesma receita que falhou sistematicamente.

O golpe está aí, montado com todo o rigor de uma produção teatral. É uma refeição de plástico, sem substância e com prazos de validade expirados desde 2016. Ulisses acha que os bravenses têm fome de ilusões, mas a ilha já percebeu que, por trás da propaganda, o prato está vazio. Cai quem quer, mas convém levar o seu próprio antídoto contra a indigestão política que aí vem.

Moises Santiago