O "Capuchinho" Colin e o Lobo Mau dos Diques - Colin Miranda

Era uma vez... Bom, isto não é um conto dos Irmãos Grimm, é a pura realidade da zona de Santana. Mas o enredo era igualzinho, só mudava o cenário e o sotaque.

Jan 25, 2026 - 11:49
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O "Capuchinho" Colin e o Lobo Mau dos Diques - Colin Miranda
Eu tinha uns 8 anitos, a idade da inocência e das pernas curtas. A minha mãe, na sua infinita bondade culinária, tinha acabado de preparar a sua especialidade: doce de papaia. Aquele doce que brilha, com cheiro de cravinho e canela, capaz de ressuscitar mortos.
A destinatária era a "Tia Lálá"( sim a mesma do Hospital ), que morava na zona do Fundo. A missão foi-me confiada com a gravidade de quem transporta a coroa da rainha.
​A mãe colocou o tesouro numa tigela de loiça e fez aquele embrulho clássico de quem sabe o que faz: um pano de cozinha xadrez (vermelho e branco, para manter a tradição), atado com um nó duplo no topo, formando uma pega segura.
— Vai, meu filho. Não pares pelo caminho e entrega isto à Tia Lálá.
​Lá fui eu. O "Capuchinho" Colin.
Saí de Santana rumo ao Fundo, a saltitar pela estrada, sentindo-me importante. O cheiro do doce atravessava o pano e ia deixando um rasto de perfume que, mal sabia eu, atrairia predadores.
​Ao descer a ribeira, o perigo espreitava. Não era uma floresta escura, era uma obra de construção de diques. E o lobo não tinha pelo, tinha uma colher de pedreiro na mão.
De repente, uma voz grossa ecoou nas pedras:
— "Netcho!"
​Congelei. Era o Djandjan. Conhecido da família, tio das minhas vizinhas e, naquela tarde, o meu carrasco gastronómico.
— Aonde vais com tanta pressa, rapaz? — perguntou ele, com aquele sorriso de quem já farejou a presa.
— Vou à casa da Tia Lálá levar doce de papaia que a minha mãe mandou — respondi eu, com a honestidade suicida das crianças.
​Os olhos do Djandjan brilharam mais que o doce.
— Doce de papaia? Hum... Venha cá, deixa o tio ver se está bom.
​Fui. Inocente como um cordeiro.
O que aconteceu a seguir foi um assalto à mão desarmada. O Djandjan não só tomou a tigela das minhas mãos pequeninas, como chamou a alcateia (os outros rapazes da obra).
— Rapazes, pausa para o lanche! O Netchinho trouxe a sobremesa!
​Em segundos, devoraram tudo. Eu assisti, estático, vendo o presente da Tia Lálá desaparecer nas goelas dos trabalhadores. Mas o toque de génio do mal — a verdadeira obra-prima da vilania — veio no fim.
A tigela estava vazia, mas tinha aquela calda grossa e pegajosa no fundo. O Djandjan olhou para mim, olhou para a calda e teve uma ideia diabólica para limpar o seu crime.
— Chega aqui.
​Agarrou-me pelo queixo e, com o dedo, esfregou a calda de papaia nos meus lábios, nas bochechas e no queixo. Ficou tudo brilhante, pegajoso e com cheiro a culpa.
— Pronto. Agora podes ir.
​Fiquei ali, sem doce, sem tigela cheia e com a cara de quem tinha comido até rebentar. O Lobo Mau não só roubou o Capuchinho, como falsificou as provas!
​O regresso a casa foi o meu calvário. Voltei a arrastar os chinelos, com a tigela vazia a balançar na mão.
Quando a minha mãe me viu à porta, a primeira coisa que notou foi a minha cara lambuzada, brilhando ao sol.
— Colin?! Já voltaste? E a Tia Lálá? — perguntou ela.
​Levantei a tigela vazia, com olhos de choro.
— Mâ... é ka kel busado di Djandjan!
​Ela olhou para a minha boca suja. Olhou para a tigela rapada. Qualquer mãe normal teria puxado da chinela, achando que o filho era um guloso mentiroso. Mas a minha mãe? Ah, a minha mãe tinha um sexto sentido apurado.
— O Djandjan? — repetiu ela, estreitando os olhos.
— Sim! Ele tomou-me o doce, deu aos rapazes e depois esfregou a calda na minha cara para parecer que fui eu! — expliquei, indignado com a injustiça.
​Houve um segundo de silêncio. A minha mãe olhou para mim e depois começou a abanar a cabeça, não de raiva de mim, mas de descrença.
— Aquele Djandjan... — suspirou ela, limpando a minha cara com o avental. — Só podia ser coisa dele mesmo. Tu és guloso, mas não és burro para chegar a casa sujo desse jeito se tivesses comido às escondidas.
​Ela acreditou em mim! A fama de "abusado" e "txacotero" do Djandjan era tão grande que salvou a minha pele. O crime dele foi tão perfeito que se tornou óbvio demais para a sabedoria da minha mãe.
​Nesse dia aprendi que a verdade liberta, mas ter uma mãe esperta liberta muito mais.
Quanto ao Djandjan, livrou-se do crime, mas na zona ficou a saber-se: ele era o único pedreiro capaz de roubar doce a uma criança e ainda usar a cara do menino como guardanapo!
​E a pobre Tia Lálá? Bem, essa teve de esperar pela próxima remessa de papaias.