35 anos de democracia Episódio I - Seis Presidentes e uma ilha, a liderança municipal do Presidente Jorge Nogueira

Cidade de Nova Sintra, 1 de Fevereiro de 2026 (Bravanews) - A história da liderança municipal da ilha Brava, no período democrático, confunde-se com o percurso e a entrega de homens que, vindos de diferentes origens, fizeram da ilha o seu projeto de vida e de serviço público. Entre esses nomes, destaca-se Jorge Nogueira, um dos seis Presidentes da Câmara Municipal da Brava na era democrática, cuja passagem pelo poder local ficou marcada por decisões estruturantes e por uma visão clara de desenvolvimento para a ilha.

Feb 1, 2026 - 12:14
Jan 25, 2026 - 12:29
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35 anos de democracia Episódio I - Seis Presidentes e uma ilha, a liderança municipal do Presidente Jorge Nogueira

Sendo o primeiro Presidente da Câmara Municipal da Brava, Jorge Arcanjo Livramento Nogueira nasceu a 23 de Abril de 1958, na ilha do Fogo, mas foi ainda jovem que se mudou para a Brava. A ilha acolheu-o, moldou-o e acabou por se tornar o espaço onde construiu a sua vida pessoal e política. Foi na Brava que criou raízes profundas, ganhando o carinho da população e assumindo um compromisso duradouro com o progresso da ilha.

Com a abertura política e o advento da democracia em Cabo Verde, Jorge Nogueira integrou os primeiros quadros do novo sistema. Após exercer, durante alguns meses, o cargo de Delegado do Governo, decidiu avançar para a política autárquica. A 15 de dezembro de 1991, venceu as eleições e tornou-se o primeiro Presidente da Câmara Municipal da Brava, assumindo funções num momento particularmente exigente, em que as autarquias ainda davam os primeiros passos num país recém-democratizado.

Em conversa com a Bravanews, Jorge Nogueira recorda esse período como uma fase de grandes desafios, mas também de conquistas que deram um impulso decisivo à ilha. Entre os marcos mais importantes do seu mandato, destaca-se, desde logo, a introdução do ensino secundário na Brava. Após negociações com o Ministério da Educação, foi possível iniciar o primeiro ano do curso complementar dos liceus — então o 3.º ano do liceu, atual 7.º ano. Numa primeira fase, a Câmara Municipal assumiu integralmente as despesas de funcionamento, até que o Ministério passou a suportar os custos. Até então, os alunos que concluíam o ciclo preparatório eram obrigados a deslocar-se para a Praia ou para São Vicente para prosseguir os estudos, uma realidade que fazia com que poucos continuassem a sua formação académica. Esta medida alterou profundamente o futuro de várias gerações de jovens bravenses.

Outro passo inovador foi dado na área da energia. Através da cooperação alemã, a Câmara conseguiu um aerogerador, instalado em Favatal, que permitiu uma poupança de cerca de 30% nas despesas com combustíveis da central elétrica. Tratava-se de uma solução inovadora para a época, sobretudo numa ilha como a Brava, onde Favatal apresentava condições naturais excepcionais de vento para a produção de energia eólica.

Ainda no domínio da saúde, a cooperação alemã viabilizou a aquisição de uma incubadora para crianças nascidas prematuramente, um equipamento inédito na ilha até então. Esta conquista teve um impacto direto na melhoria dos cuidados de saúde materno-infantis, num período em que o Delegado de Saúde era o Dr. Pedro Morais, que acumulava também as funções de Vereador responsável pela área da saúde na Câmara Municipal.

O acesso à água canalizada foi outro dos eixos centrais do mandato de Jorge Nogueira. Várias localidades passaram a beneficiar deste serviço básico, com especial destaque para Lomba Tantum, onde a população dependia até então das lavadas destinadas à rega agrícola, estando a água sujeita a todo o tipo de impurezas. A chegada da água canalizada representou um salto significativo em termos de saúde pública e qualidade de vida.

A Câmara Municipal assumiu igualmente um papel ativo no apoio ao sector das pescas. Um número significativo de pescadores foi beneficiado com motores de popa, numa altura em que apenas uma minoria dispunha deste tipo de equipamento. Em Tantum, a maioria dos botes ainda ia para a pesca a remo, o que tornava a atividade mais dura e menos produtiva. Este apoio contribuiu para modernizar a pesca artesanal e melhorar o rendimento das famílias.

No campo da eletrificação, o mandato ficou marcado pela parceria entre a Câmara e o Governo para levar energia elétrica às localidades de Furna, Cova Rodela e Cova de Joana. Foi uma medida de enorme alcance social, vivida com grande entusiasmo pelas populações, que passaram a ter acesso a um serviço essencial para o seu desenvolvimento.

As infraestruturas desportivas e comunitárias também mereceram atenção. A Câmara construiu o Polivalente de Cachaço e deixou o Estádio Aquiles de Oliveira numa fase avançada de construção, lançando as bases para a promoção do desporto e da convivência comunitária na ilha.

Paralelamente, Jorge Nogueira apostou na cooperação internacional e na geminação com municípios portugueses, estabelecendo relações com autarquias de referência, como o município de Sintra, que passou a oferecer uma bolsa de estudo anual a estudantes da Brava. Esta iniciativa abriu novas oportunidades de formação e reforçou os laços entre a ilha e a diáspora institucional portuguesa.

Entre muitos outros feitos, importa ainda recordar a influência decisiva da Câmara Municipal, nesse período, na construção da pista da Esparadinha, inaugurada ainda durante o mandato de Jorge Nogueira. Este projeto estava intimamente ligado ao que viria a ser o maior desafio e, simultaneamente, o maior sonho dos bravenses: ver o avião aterrar na Brava. A concretização desse sonho simbolizava a abertura definitiva da ilha ao país e ao mundo.

Para salientar, Nogueira disse que as dificuldades de então na Brava se prendia com a enorme limitação de recursos humanos na Câmara. O funcionário administrativo mais categorizado era uma escriturária de 2ª classe. O Gabinete Técnico contava com apenas um Mestre de Obra, um Desenhador e alguns Fiscais. Na altura, conseguimos várias bolsas para formação em Portugal, mas a ilha não dispunha de muitos jovens com as habilitações exigidas.

Jorge Nogueira liderou uma equipa composta, entre outros, pelos Vereadores José Maria Goncalves Barros, Pedro João Lomba de Morais, João Evangelista Ramos Vicente e Daniel Manuel Santos do Rosario. Com a saída do Vereador Daniel Manuel Santos do Rosário, transferido para ilha do Fogo, este foi substituído por Pedro Pires. 

Miguel Pires Vieira foi o primeiro Presidente da Assembleia Municipal da Brava. Juntos, enfrentaram as limitações de uma autarquia jovem, com poucos recursos, mas com uma enorme vontade de transformar a realidade da ilha.

Décadas depois, o legado de Jorge Nogueira permanece vivo na memória coletiva da Brava, como um exemplo de liderança num período fundacional da democracia local, marcado por visão, inovação e um profundo sentido de compromisso com o desenvolvimento da ilha que o acolheu como filho.

Moises Santiago

Foto cedido pelo próprio Jorge Nogueira