O grupo reorganizou-se rapidamente. Estavam lá a minha irmã Dilo, as vizinhas Ivete e Vivi (filhas da Nha Vinda), um tal de Marlon (que tinha vindo passar férias e caiu de paraquedas na confusão) e outros tantos.
Como em qualquer grupo de crianças, há sempre uma hierarquia. E naquela tarde, a Líder Suprema era a minha irmã Dilo. Era ela quem mandava, desmandava e geria a "casinha".
A "casinha" era um exemplo de engenharia e reciclagem: o almoço era folhas de tamarineira, os pratos eram "tapos" (tampas) de galão e os sofás eram caixas de fósforos vazias. Tudo muito criativo.
Mas, naquela tarde, a ementa tinha um prato gourmet: Camoca.
Não era camoca de fingir (terra). Era camoca a sério, docinha, que tinham conseguido surripiar cá de casa.
Eu, guloso como sempre fui, se não estivesse de castigo, teria sido o primeiro a mergulhar a mão naquele prato. Mas o destino (e o bico de touro) manteve-me longe.
Acontece que, no meio do banquete, deu-se o típico drama infantil: a partilha falhou. A Dilo, a Ivete e mais um ou outro comeram a camoca toda e deixaram a pobre Vivi a chuchar no dedo.
A Vivi, revoltada com a injustiça social, fez o que qualquer criança injustiçada faria: foi fazer queixa à autoridade máxima. Correu até à janela da minha mãe e soltou a bomba:
— "Né..." (era assim que chamava a minha mãe) "...Dilo ku Ivete cumé camoca es só, es ka parti ku mi!"
A minha mãe, que ainda estava a recuperar do stress do meu dinheiro perdido, franziu a testa.
— Camoca? Que camoca? Mandem-nas vir cá agora!
Quando a Dilo chegou, a minha mãe perguntou onde tinham arranjado aquilo.
— Encontrei num prato atrás do guarda-loiças... — confessou a Dilo, a tremer.
Foi aí que a cor da cara da minha mãe desapareceu. O pânico instalou-se.
Aquela não era uma camoca qualquer para o lanche. Aquele prato tinha sido colocado estrategicamente atrás do móvel para apanhar um rato que andava a passear pela casa.
A camoca estava carregada de veneno.
O caos instalou-se em Santana.
A minha mãe, desesperada, começou a aplicar o antídoto caseiro de emergência: LEITE.
Foi leite para a Dilo, leite para a Ivete, leite para o Marlon... era leite a correr goela abaixo de todos os "envenenados" para tentar cortar o efeito.
Mas, na dúvida, o leite não chegava. Era preciso ir ao hospital.
A minha tia Loi foi chamada de urgência para liderar a missão. E foi aí que se deu uma das cenas mais caricatas da nossa infância.
Imaginem só: um grupo de crianças, todas com bigodes de leite e olhos arregalados de medo, a caminhar em fila indiana, apressados, como gado a caminho do curral.
Quem passava na rua ficava a olhar, sem entender nada:
— "Mas o que é que se passa ku minisos di Santana?"
Lá foram eles, em procissão, rumo às urgências para fazer lavagens ao estômago e garantir que o rato não levava companhia humana.
Felizmente, e graças a Deus, acabou tudo bem. O susto foi maior que o dano e todos sobreviveram para contar a história (e para levarem o raspanete merecido depois).