Brava:“Foi entusiasmante ter sido jovem e participado no processo da luta para a independência” – Pedro da Lomba

  • 06/07/2019 02:25

Pedro da Lomba Morais, 68 anos, médico reformado natural da ilha Brava, considera que ter participado no processo da luta da independência de Cabo Verde “não foi fácil, mas foi entusiasmante”.

Pedro da Lomba Morais fez estas considerações à Inforpress no âmbito da comemoração dos 44 anos da Independência de Cabo Verde, celebradas hoje, 05 de Julho.

O mesmo fez uma retrospectiva, relembrando que há 44 anos, era estudante em Portugal e na altura interrompeu os estudos e regressou para Cabo Verde, especialmente para a ilha Brava, na época da luta pela independência, porque neste período “um pouco complicado” de mobilização, particularmente na ilha, houve uma série de problemas que levou o afastamento de algumas personalidades marcantes na época para outros destinos.

“Sendo assim, fui chamado em Portugal, para vir dar apoio, acalmar um pouco a situação e mobilizar pessoas a participarem na luta”, contou o médico.

Relembrou que veio no mês de Fevereiro e na altura da proclamação da independência, o responsável máximo estava na Assembleia Nacional, e caiu sobre ele a responsabilidade de proferir o discurso de proclamação da independência na Brava.

Entre risos, realçou que foi um discurso que nem saiu grande coisa, porque a emoção era tanta na altura, recheada de lágrimas, por ter sido uma luta “dura” para que o país chegasse nesse dia.

Questionado sobre as recordações da época, o mesmo destacou que são várias.

E relembrou que foi para Lisboa estudar em 1971 e na época era uma altura “forte” de lutas cívicas nos Estados Unidos, tendo seguido um período “muito intenso” de lutas para as libertações, e como jovem envolvido no meio universitário teve conhecimento e muita bagagem nesta matéria.

“Era uma luta clandestina, com a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), no controlo, e na época, havia duas tendências. Ou partíamos para a luta armada na Guiné-Bissau ou ficávamos para a parte de formação intelectual”, realçou a mesma fonte.

Na época, a contestação era mais avançada no seio dos estudantes, mesmo que manifestações não eram permitidas, contou que manifestavam-se clandestinamente, pregando cartazes e “fazendo mexer e desaparecer”, porque senão iriam parar na cadeia.

Como uma ironia, comparou esta luta à “do gato e do rato” com a PIDE, mas também, a PIDE não poderia prende-los todos, porque, conforme o mesmo, seria assumir que havia um movimento contra.

Em termos cronológicos dos acontecimentos e motivações para a continuidade da luta pela independência, Pedro da Lomba comentou que a morte de Amílcar Cabral “reforçou” o espírito de combate, depois o golpe de estado em Portugal a 25 de Abril, que foi também “extraordinário e motivante”.

Daí, deu-se continuidade à luta para a libertação do país, que exigiu “muito esforço” de muita gente, e os jovens estudantes foram chamados para reforçarem os colegas que tinham chegado da luta da Guiné-Bissau.

Falando um pouco do seu trabalho na ilha Brava, comentou que recorda este período como sendo um período “complexo”, porque havia muitas diferenças em termos ideológicos a nível de partido, sobretudo porque uns estavam favorável para a independência e a liberdade e outros queriam continuar como estavam.

Até porque, realçou, o movimento era mais forte a nível de Santiago e São Vicente, embora não tendo conhecimento de como foi nas outras ilhas.

Mas na Brava, relembra que houve um problema, porque como jovens que eram, muitos possuíam uma posição de esquerda radical, o que levou o afastamento do Padre Pio da ilha, que era e até hoje é uma referência da ilha, assim como Francisco Feijó, entre outros, criando um clima tenso.

Segundo o mesmo, na altura a “maior parte” das pessoas não era favorável à independência, porque a ilha é muito influenciada pelos EUA, o que ficou “um pouco mais complicado”.

A mesma fonte contou que na época não teve nenhum receio quando foi chamado, porque já havia alguma “tarimba” e veio com um feitio de aconselhador e dar continuidade aos trabalhos que tinham sido iniciado pelos seus colegas.

Até porque, realçou que na época o período colonial português já estava no fim já estavam preparados para receber a independência e a liberdade.

Com todo este percurso o entrevistado disse que “não foi fácil mas foi entusiasmante ter sido jovem e participado no processo da independência”, pois, o país que há hoje foi e é fruto do esforço e da resistência de muitos.