Uma Brava além das promessas eleitorais: o retrato de um país a nove velocidades - Sector da criação de animais
Cidade de Nova Sintra, 10 de Abril de 2026 (Bravanews) - Numa ilha onde o tempo parece correr mais devagar, mas os desafios se acumulam com rapidez, a criação de animais na Brava tornou-se um espelho fiel das desigualdades estruturais que marcam Cabo Verde. Para além das promessas eleitorais repetidas a cada ciclo, existe uma realidade silenciosa, vivida diariamente por criadores que resistem mais por necessidade do que por apoio efetivo.
Falar da Brava é falar de resiliência. Mas essa resiliência tem sido, ao longo dos anos, romantizada para esconder falhas profundas de políticas públicas. No sector da criação de animais — caprinos, bovinos, suínos e aves — os problemas são antigos, conhecidos e, ainda assim, persistentemente ignorados.
A primeira grande barreira é, inevitavelmente, a falta de água. Sem água, não há pasto; sem pasto, não há criação sustentável. Os criadores vivem dependentes de chuvas irregulares, cisternas insuficientes e soluções improvisadas. Em muitos casos, a alimentação dos animais depende de rações caras importadas, o que reduz drasticamente a margem de lucro e torna a atividade quase de subsistência.
A isto soma-se a escassez de assistência técnica especializada. Enquanto noutras ilhas ou regiões do país se começam a ver avanços em termos de modernização agrícola e pecuária, na Brava os criadores continuam praticamente entregues à sua própria experiência empírica. Falta acompanhamento veterinário regular, programas de melhoramento genético e formação contínua. A consequência é uma produção pouco eficiente e vulnerável a doenças.
Outro problema estrutural é o acesso ao mercado. Produzir já é difícil; vender é ainda mais. A insularidade, agravada pela irregularidade dos transportes marítimos, limita a capacidade de escoamento dos produtos. Muitas vezes, os criadores são obrigados a vender localmente a preços baixos ou, pior ainda, a perder produção por falta de canais de distribuição. A ausência de cadeias de frio e de infraestruturas adequadas agrava ainda mais o cenário.
Não menos importante é a questão do financiamento. O acesso ao crédito é limitado, burocrático e, na prática, inacessível para muitos pequenos criadores. Sem garantias formais, sem rendimentos estáveis e sem apoio institucional consistente, investir na melhoria das condições de criação torna-se um risco elevado.
Este conjunto de dificuldades revela um país que não avança ao mesmo ritmo em todas as suas regiões — um verdadeiro “país a nove velocidades”, onde algumas ilhas dão passos rumo à modernização enquanto outras permanecem presas a desafios básicos. A Brava, neste contexto, surge como um exemplo claro de como a desigualdade territorial compromete o desenvolvimento nacional.
As promessas eleitorais, frequentemente centradas em projetos grandiosos ou em soluções de curto prazo, raramente tocam no essencial: políticas estruturantes, continuidade de investimentos e adaptação às especificidades locais. Fala-se de desenvolvimento rural, mas pouco se concretiza no terreno. Fala-se de apoio ao agricultor e criador, mas esse apoio não chega de forma consistente nem eficaz.
É urgente inverter este ciclo. O sector da criação de animais na Brava não precisa apenas de promessas; precisa de planeamento sério, investimento contínuo e proximidade institucional. Precisa de soluções concretas para a água, de técnicos no terreno, de acesso facilitado ao crédito e de uma estratégia clara para integração nos mercados.
Mais do que isso, precisa de ser visto como parte integrante do desenvolvimento do país — não como uma nota de rodapé em discursos políticos.
Porque, no fundo, o que está em causa não é apenas a sobrevivência de um sector, mas a dignidade de uma ilha inteira que continua a esperar que o desenvolvimento deixe de ser promessa e passe a ser realidade.
MS






















