Jovem bravense denuncia condições de exploração laboral em Dubai
Uma jovem natural da ilha Brava, que prefere manter o anonimato por receio de represálias, denunciou estar a viver uma situação extremamente difícil nos Emirados Árabes Unidos, onde trabalha como empregada doméstica em Dubai. Esta é a segunda vez que a jovem se encontra naquele país, mas garante que a experiência tem sido marcada por abusos, falta de liberdade e condições laborais desumanas.

“Se eu soubesse o que me esperava, nunca teria vindo.” É assim que uma jovem da ilha Brava, que prefere não revelar a sua identidade, descreve a sua vida em Dubai. Pela segunda vez naquele país, a bravense revela estar a viver um pesadelo de exploração e medo, muito distante das promessas de um futuro melhor que a levaram a aceitar a oferta de trabalho.
A jovem trabalha como empregada doméstica e conta que os dias começam cedo e só terminam tarde da noite, sem pausas, sem descanso, e sem qualquer dia livre durante a semana. O salário que recebe — cerca de 370 dólares americanos — mal compensa o cansaço físico e emocional. Mas, para além da exaustão, o que mais a aflige é a sensação de prisão silenciosa.
“Não posso sair de casa sozinha. Quando saio, alguém me vigia. O meu passaporte foi apreendido. Disseram-me que só o devolvem depois de dois anos, quando o contrato acabar. Até lá, não tenho escolha: sou obrigada a ficar”, desabafa.
A voz da jovem carrega medo, mas também revolta. Sente que perdeu a liberdade, e que o contrato que assinou transformou-se numa corrente invisível, difícil de quebrar. “É como se fosse propriedade de alguém. Vivo numa casa grande, mas sinto-me trancada numa prisão”, confessa, emocionada.
Apesar das dificuldades, a bravense encontrou forças para partilhar a sua história como forma de alerta a outros conterrâneos. “Peço a todos: não aceitem vir sem conhecerem toda a verdade. As promessas parecem boas, mas a realidade é dura. A dor que sinto não desejo a ninguém.”
Histórias como esta não são raras. Organizações internacionais de defesa dos direitos humanos já denunciaram repetidamente o sistema de patrocínio (“kafala”) praticado em vários países do Golfo, que permite aos empregadores reter documentos e restringir a liberdade dos trabalhadores estrangeiros. Muitos especialistas consideram esta prática uma forma moderna de escravidão laboral.
No caso de Cabo Verde, várias famílias já relataram experiências semelhantes vividas por jovens que partiram em busca de uma vida melhor, mas encontraram exploração e medo. Ainda assim, a necessidade económica e a promessa de salários mais altos continuam a empurrar muitos para essa realidade.
Enquanto aguarda o fim do contrato, a jovem bravense sonha com o dia em que poderá regressar à sua terra natal e abraçar os seus familiares. Até lá, vive cada dia como uma batalha silenciosa. “Tenho fé que vou voltar. Mas, até lá, só me resta aguentar. Quero que a minha história sirva de aviso, para que outras jovens não passem pelo que eu estou a passar.”