Tragédia do Matilde: 82 anos depois, a memória do navio desaparecido continua viva na Brava

Brava, 30 de agosto de 2025 – Completou-se no dia 27 de Agosto, 82 anos de um dos episódios mais misteriosos e dolorosos da história marítima de Cabo Verde: o desaparecimento do veleiro “Matilde”, que partiu do porto de Fajã d’Água, na ilha Brava, rumo aos Estados Unidos da América, mas nunca chegou ao seu destino. A bordo seguiam 53 pessoas, entre tripulação e passageiros, que se perderam para sempre no Atlântico

Aug 30, 2025 - 05:01
 0  177
Tragédia do Matilde: 82 anos depois, a memória do navio desaparecido continua viva na Brava

O Matilde zarpou no dia 27 de agosto de 1943, em plena época de Segunda Guerra Mundial, num tempo em que muitos cabo-verdianos atravessavam o oceano em busca de melhores condições de vida na América, sobretudo em cidades como Providence, New Bedford e Pawtucket, onde já existiam comunidades emigrantes consolidadas.

Apesar da esperança que a viagem representava para dezenas de famílias, o navio e todos os que nele seguiam desapareceram sem deixar rasto. Nenhuma mensagem de socorro foi registada, nenhum destroço foi recuperado, e nenhuma explicação definitiva foi dada sobre o que terá acontecido. O Atlântico guardou o seu segredo.

O desaparecimento do Matilde deixou marcas profundas na ilha Brava, particularmente em Fajã d’Água, de onde o navio partiu. Muitas famílias perderam parentes e nunca tiveram a oportunidade de realizar um funeral digno, vivendo para sempre na incerteza.

“Foi um golpe que dilacerou a comunidade bravense. Até hoje, em muitas casas, ainda se recorda alguém que partiu naquela viagem e nunca voltou”, relatam historiadores.

Entre os descendentes, a dor foi transformada em memória. Maria Lopes, neta de um passageiro do Matilde, recorda a história que ouviu desde criança:

“A minha avó esperou anos por notícias. Dormia todas as noites acreditando que alguém poderia bater à porta a dizer que o navio tinha sido avistado. Mas nada. Até hoje, a nossa família guarda um vazio que nunca foi preenchido.”

Na diáspora cabo-verdiana nos Estados Unidos, onde muitos aguardavam ansiosamente a chegada dos familiares, a lembrança ainda ecoa. José Andrade, residente em Pawtucket e filho de emigrantes bravenses, considera que a tragédia do Matilde simboliza os riscos da emigração cabo-verdiana:

“Os que morreram no mar eram pioneiros, sonhavam com uma vida melhor para os filhos e netos. Muitos de nós que vivemos hoje na América estamos aqui porque outros arriscaram tudo. O Matilde é uma ferida aberta, mas também um símbolo da nossa coragem coletiva.”

Também em Providence, a comunidade organiza, de forma simbólica, pequenas vigílias em memória das vítimas. Velas são acesas, histórias são partilhadas e as novas gerações são lembradas da importância de não deixar a memória apagar-se.

A viagem do Matilde ocorreu num período particularmente arriscado. O Atlântico estava sob vigilância apertada devido à guerra, com submarinos alemães a rondar as rotas marítimas. Embora não haja provas concretas, alguns investigadores acreditam que o veleiro pode ter sido vítima de ataques de guerra ou simplesmente sucumbido a condições meteorológicas extremas.

Outros sustentam que a sobrecarga e a fragilidade dos barcos à vela utilizados naquela época para as longas travessias poderiam ter contribuído para o desfecho trágico.

Na Brava, sobretudo em Fajã d’Água, ainda hoje se evocam os nomes de familiares que partiram no Matilde. É uma memória transmitida de geração em geração, onde a dor se mistura com orgulho.

“Lembrar o Matilde é também lembrar que a nossa diáspora foi construída com sacrifícios e com vidas perdidas no mar. São mártires do nosso povo”, sublinha António da Veiga, professor e investigador de história cabo-verdiana.

O desaparecimento do Matilde continua sem respostas, mas permanece vivo na memória coletiva como uma das maiores tragédias marítimas da história de Cabo Verde.