João Spínola, do Porto de Dakar aos navios gregos, a Odisséia dos marinheiros cabo-verdianos rumo à Europa e aos mares do mundo
Durante grande parte do século XX, milhares de cabo-verdianos encontraram no mar uma porta de saída da pobreza e da falta de oportunidades nas ilhas. Entre eles, a figura de João Spínola, homem de coragem e pioneiro, é lembrada como símbolo de uma geração que, a partir do Porto de Dakar, se lançou nos navios gregos em busca de futuro. Esta epopeia marítima marcou não apenas a vida dos indivíduos, mas também o destino de Cabo Verde e da sua diáspora espalhada pelo mundo.

No pós-guerra, quando a economia das ilhas cabo-verdianas enfrentava a dureza da seca e da fome, o porto de Dakar, no Senegal, transformou-se numa verdadeira porta de entrada para os sonhos dos jovens marinheiros. Ali, concentrava-se o recrutamento para navios estrangeiros que navegavam para a Europa e para outras rotas comerciais internacionais.
Foi nesse contexto que João Spínola, natural de ilha Brava, Cabo Verde, encontrou o seu caminho. Dakar, cidade cosmopolita e de intensa actividade marítima, era o local onde centenas de cabo-verdianos aguardavam uma oportunidade de embarcar. Os agentes marítimos, frequentemente ligados a companhias gregas, italianas e francesas, recrutavam homens dispostos a enfrentar os perigos do oceano em troca de salário e, sobretudo, da possibilidade de viajar para a Europa.
Os armadores gregos, em particular, tiveram um papel determinante nessa história. Conhecidos pela sua expansão no transporte marítimo no pós-guerra, eram eles que mais recorriam à mão de obra cabo-verdiana. Resistentes, disciplinados e com fama de excelentes marinheiros, os cabo-verdianos conquistaram espaço naquelas embarcações.
João Spínola foi um dos que se destacou nesse percurso. A bordo de cargueiros e petroleiros gregos, percorreu oceanos, atravessou tempestades e conheceu portos que muitos compatriotas apenas sonhavam. A dureza da vida a bordo — longas jornadas, perigos constantes e meses de distância da família — não diminuía a esperança. Cada viagem representava não apenas um salário, mas a possibilidade de juntar economias, enviar remessas e, eventualmente, construir uma vida melhor em terra firme.
A epopeia de Spínola é também a epopeia de uma geração. De Dakar para Marselha, Pireu, Roterdão, Hamburgo, Santos, Cape Town, Singapore ou Nova Iorque, os marinheiros cabo-verdianos criaram uma rede invisível que ligava o arquipélago aos grandes portos do mundo. Muitos fixaram residência na Europa, sobretudo na Holanda, França e Itália, constituindo as primeiras comunidades migrantes que mais tarde serviriam de apoio às novas vagas de emigrantes.
Mas mesmo para aqueles que ficavam no mar, o vínculo com Cabo Verde nunca se rompia. As remessas enviadas pelos marinheiros sustentavam famílias inteiras nas ilhas, financiavam festas tradicionais, construíam casas e ajudavam a criar uma classe média embrionária no arquipélago.
Hoje, quando se fala da diáspora cabo-verdiana, a figura do marinheiro ocupa lugar de honra. João Spínola simboliza não apenas a coragem individual, mas a determinação de um povo que sempre soube transformar as adversidades em horizontes. A sua odisseia, iniciada no porto de Dakar e prolongada nos convés dos navios gregos, é também a memória de Cabo Verde como nação marítima.
O mar foi a estrada, a escola e a esperança de milhares de homens que, como Spínola, escolheram desafiar a incerteza para abrir caminhos. Eles levaram Cabo Verde no coração e trouxeram o mundo para dentro das ilhas. Hoje, a diáspora globalizada e a identidade cabo-verdiana espalhada pelo planeta são frutos diretos dessa epopeia.