Brava, a ilha inviolada que cheira a rosas e a açucenas orvalhadas

  • 06/06/2019 05:49

As ilhas de Cabo Verde são todas belas, com características diferentes mas ricas nos contrastes harmoniosos das suas montanhas, ora verdejantes ora secas, com o seu solo que apresenta aflorações eruptivas com disposições sedimentares onde a erosão talhou, nalguns casos, vales profundos de espectacular efeito, desfiladeiros estonteantes nas ilhas de Santo Antão, S. Nicolau, Santiago, Fogo e Brava, imensos areais a perder de vista na planura da ilha do Sal, dunas ondulantes e rosadas nas ilhas da Boavista e do Maio, baías de águas claras e apetecíveis como a Baia do Porto Grande em S. Vicente, crateras de vulcões extintos há séculos, ou o majestoso vulcão da ilha do Fogo, grito negro na Chã plana, verdejante, envolvida pelo negro das lavas recentemente expelidas por uma das crateras do imponente vulto que domina esta ilha.
A Brava é todavia uma ilha especial. O sentimento de encanto pela Brava cresceu na minha alma ansiosa enquanto eu crescia para a vida. Ela foi e será sempre no meu coração a ilha inviolada que cheira a rosas e açucenas orvalhadas, flutuando misteriosa entre a espessura das manhãs de nevoeiro e a frescura branca das noites de luar, sem temor nem rumor de dor. 
O seu mar cintila cristalino entre as rochas, como beijos à chuva num amanhecer de Verão. Tudo na Brava é absolutamente adorável.
Quando se chega à Brava a ilha surge como um penhasco árido e solitário no meio do mar imenso mas, ao deixar a Furna, a ilha revela-se amorosa, verde e florida. A névoa que cobre as montanhas de manhã e ao fim da tarde mantém-se durante todo o ano, o que envolve a ilha numa frescura transparente que não se encontra em nenhuma outra de Cabo Verde. 
Descoberta em 1642, o seu povoamento deu-se bastante mais tarde. Em 1680, os habitantes do Fogo deslocaram-se para a Brava devido a uma erupção vulcânica. No final do séc. XVIII os baleeiros de New Bedford e de Rhode Island começaram a utilizar a ilha como ponto de reabastecimento e para recrutar marinheiros. Esta prática tornou-se frequente e estendeu-se ao Fogo e S.Nicolau.
As condições de vida nos baleeiros eram muito duras e os homens começaram a procurar terra, instalando-se, grande parte, em Massachussetts e Nova Inglaterra (Pawtucket, Providence, East Providence , New Bedford e outras cidades dos Estados de Rhode Island e Massachussetts). Ainda hoje Brava é testemunha da influência marcante da emigração para o continente americano: é aqui onde se fala mais o americano e o “crioulo com tempero americano”, e onde se encontram mais produtos originários dos Estados Unidos da América.
São famosas as festas populares e religiosas na Brava, principalmente as festas de S. João Baptista, em Junho, com as suas cavalhadas, a fixação do mastro, quermesses, foguetes e fogos de artifício, festas que contam com a presença de muitos emigrantes da ilha.
A sua capital, Vila de Nova Sintra, é uma vila de rara beleza que deve o seu nome às suas características que fazem lembrar Sintra (Portugal). O clima é excelente, oscilando a temperatura entre os16º e o 25º. A Vila situa-se na base de um círculo de montanhas, com uma agradável disposição das ruas; o casario branco e rodeado de terra cultivada a que chamam cerco; jardins floridos, matizados de mil cores: hibisco (conhecido por cardeal), buganvília, jacarandá, jasmim, lantuna ( conhecida por freira), rosa, dália…. Sobressai a Praça Eugénio Tavares, com o seu busto e uma placa dedicada ao célebre poeta.
Na sua pequenez, a ilha é no entanto uma das mais montanhosas do Arquipélago. Contrastam os cumes elevados com vales profundos e abruptos. A costa é acentuadamente recortada, com várias baías: Furna, Ancião, Fajã d’ Água e Sorno. Como vestígio da actividade vulcânica pode ver-se em Fundo Grande uma cratera.
Tem-se uma sensação de vertigem e assombro quando se percorre os caminhos da Brava para a conhecer.
Convido agora o leitor a acompanhar-nos numa viagem, realizada em 1968, por Hermano de Pina, meu pai, médico que deu imenso à sua terra mãe e que, de mãos dadas com o seu grande amigo e confidente Eugénio Tavares, muito fez pela cultura da ilha Brava: a ilha das flores, a ilha dos amores e das formosas mulheres que cativaram, encantaram e inspiraram o grande vate bravense, um dos maiores poetas cabo – verdianos de todos os tempos. 
Não posso aqui deixar de rememorar a belíssima morna “Força de Cretcheu” composta pelo poeta em homenagem ao amor de Hermano e Ana, minha mãe, amor conturbado e sofrido, tão grande como o de Romeu e Julieta.
Viajemos então calmamente pela ilha amada de Hermano de Pina que a descreveu com tanto carinho e pormenor de um bravense autêntico.
Em boa verdade, dizia meu pai, esta ilha, com tantos patrícios na América do Norte, revela-se impar na contextura das suas gentes e na vocação destes comungarem numa vontade firme e tradicional de emigrar para melhorar o seu padrão de vida e o dos seus familiares.
O viajante que chegue à Furna pode ir comodamente de automóvel até ao Campo Baixo, dispensando a tradicional montada de antigamente. De regresso à Vila de Nova Sintra, pode rodar à direita e seguir uma estrada reta para além de Porca. Ficará encantado com a vegetação densa, à esquerda e à direita, dos fertilíssimos terrenos da Achada Madalena que foram, através dos tempos, o celeiro da ilha. 
O visitante ouve falar do Mato logo à entrada de Nossa Senhora do Monte.
Nossa Senhora do Monte é um local verdadeiramente aprazível e de uma beleza extraordinária. Dista cerca de 2 km da Vila de Nova Sintra, com o seu miradouro de onde se avista a airosa vila, com culturas em terraços e até ao mar, panorama de extasiar, se não houver nevoeiro. 
Então envereda pelo Cutelo da Cova de Joana e segue pela esquerda fora. Lá muito em baixo fica a aldeia da Cova de Joana com as suas lindas casinhas brancas, de jardins e achadas bem cuidadas; lá no nível superior alberga a aldeia de Tapum bem conhecida pela excelência do seu clima e mulheres formosas. 
Caminhando mais adiante depara-se-nos então o Mato, meio envolvido de nuvens, tendo por pano de fundo o Monte das Fontainhas, o monte mais elevado da Brava e o Cutelo de Mané Cota. É uma aldeia que se impõe pela boa disposição das suas moradias, frescura do clima algo húmido e uma vegetação densa. Anos atrás, a sua gente dedicava-se muito à criação de gado; quem quisesse bons cabritos ou bom leite era dirigir-se àquela região. Outrossim, a batata holandesa era cultivada com todo o esmero pelos seus agricultores. Havia porém boa razão para isso, porquanto o pioneiro dessa cultura foi o português Nho Dominguinho. Casara-se com uma proprietária do Mato e ensinou ao povo essa modalidade de sementeira que ainda perdura por toda a ilha. 
Retomando o caminho de regresso à Vila de Nova Sintra, convém passar-se uns minutos em Lomba - Lomba e dar uma olhadela para o Vale da Fajã d’ Água. É um regalo para os olhos! Divisam-se as suas belas moradias cercadas por vergas (socalcos) primorosamente lavradas e cuidadas. O binóculo do visitante transforma-se num caleidoscópio de verdura onde predomina a cana-de-açúcar, a batateira, mandioqueira, um estendal de coqueiros e mesmo outras árvores. O Porto d’ Água, um dos mais seguros do Arquipélago, como bem afirmou o grande Almirante Gago Coutinho, fecha este cenário maravilhoso da ilha Brava.
O certo é que se fica convencido de que o regadio da Fajã d’ Água é um local muito aprazível para umas férias bem gozadas. Esta pequena aldeia, situada no sopé da montanha, tem uma baía abrigada dos ventos do nordeste. Antigamente aqui acostavam os baleeiros. Perto, uma agradável praia de areia acolhe o visitante. Nas proximidades, fica outra pequena baia, o Sorno, extremamente pitoresca e abrigada entre enormes e belos rochedos. 
Deixando a Lomba - Lomba para a Cova Rodela, entra-se numa estrada, aliás caminho, tão cheio de curvas e apertos que é de se andar com o credo na boca! E então se há chuva ou nevoeiro, em que não se vê um palmo adiante do nariz, é preferível encostar o automóvel num lugar seguro e caminhar a pé. No entanto, sossegue o leitor, que isso não é sempre, além de que os condutores bravenses são exímios em contornar tais obstáculos e o movimento de carros é diminuto. Esta incongruência prova simplesmente que os dirigentes desses caminhos e doutros não olharam para esse assunto com olhos de automobilistas ou então nunca pensaram que viria a haver automóveis na Brava. O mesmo diria da estrada da Furna, se esta não tivesse trazido grandes benefícios à nossa ilha, apesar das suas 76 curvas e contra-curvas. 
Continuando com a excursão de regresso a Cova Rodela, vê-se à nossa direita o início de uma estrada. É a estrada para o Mato Grande ou a chamada “Estrada Governador Sacramento Monteiro”, uma tal obra de grande utilidade para a Brava. Metemo-nos pela estrada fora, uma das melhores da ilha. Construída sob moldes modernos e sem curvas excessivas, galga-se suavemente. Um momento de intensa emoção.
O certo é que, à medida que se sobe, um cenário deslumbrante espraia-se debaixo dos nossos olhos!
Já na aldeia de Margarida principiávamos a sentir uma euforia muito agradável com a temperatura amena que nos envolvia. O pulôver já sabia bem e cada qual apertava-o mais de encontro ao peito. Mais além, a Vila, em baixo, surgia num esplendoroso panorama! É um mosaico de moradias branquinhas numa sinfonia de cores e de verdura que encanta a vista. É preciso sair-se da Brava para melhor apreciarmos as belezas naturais da nossa terra. O carro chegado à altura de Tina, o belo panorama acentua-se com a visão de Lêm, Minhoto e Lugarinho. A nossa vista não se cansa de admirar os filmes que se vão desenvolvendo na nossa retina. Entrementes vamos subindo até à zona do Serrado; a linda e saudável aldeia de João da Nola impõe-se com o seu cafezal, mandiocal e “tutto quanto” caracteriza aquela aldeia. No dizer dos entendidos, produz o melhor e o mais saboroso café da ilha.
Do Serrado para o Cutelo Pilone são dois passos. Aqui tem que se parar por força. Em boa verdade é donde se desfruta o melhor panorama de ilha. A Vila em cheio, Lêm, Favatal, Santa Bárbara e Furna aparecem como por encanto! Do outro lado, Pálus, Raiz e Belém surgem (em plano inclinado de grau descendente) mostrando como os antigos sabiam escolher locais aprazíveis e saudáveis para construírem suas casas de moradia, sem olharem a dificuldades de distâncias ou obstáculos de construção.
Depois do Cutelo Pilone, entra-se, à direita, no último troço da Estrada do Mato Grande. Passa-se ao alto do Mato Grande, quase em linha reta, e avista-se a colina donde se descobre, cá do fundo, o caminho para Baleia.
Durante este trajecto avistamos o Mato Grande com as suas casas bem arquitectadas e ruelas por entre alas de cardeais floridos de vermelho que dão a esta rica aldeia um ar muito alegre. A estrada, nesta altura, vira para a esquerda e vai-se ao longo da colina até a encruzilhada de Nho Djebaí onde o carro pára.
Aqui estamos chegados ao extremo da estrada. Agora, a pé, vai-se andando até um altinho onde é costume, durante as festas dos Santos Populares, armar-se um navio para a gente do Mato Grande e arredores divertirem-se e pagarem as suas promessas. Este mirante é outro ponto interessante da ilha! Dele goza-se uma esplendorosa vista para todos os lados. Em frente, lá está a ilha do Fogo, com todo a sua imponência, como se guardando a sua pequenina irmã Brava; o canal do Fogo e da Brava espraia-se à nossa vista como um grande lago azul; os ilhéus, com os seus botes pesqueiros de velas brancas a darem bota-fora para a Furna, completam esta bela visão marítima.
À direita vê-se o caminho que corre para a Baleia, Chã de Grande e Aguada onde Eugénio Tavares fazia a sua Egolândia e onde produziu os seus melhores versos.
Deste mirante não se pode deixar de dar uma olhadela para Garça. Fica num vale verdejante e bem arborizado.
É aqui que viveu Norberto da Lomba. Referindo-se a Garça, não se pode deixar de falar nesse bravense virtuoso, bondoso, correcto e que tantos e bons ensinamentos agrícolas proporcionou à gente da Brava. 
O viajante aceita uma suculenta refeição que sempre é-lhe oferecida pela “morabeza” de um amigo de Mato Grande. As horas passaram-se. Anoiteceu. Agora vai-se apreciar a nova iluminação eléctrica da Vila e arredores.
É uma sensação de volúpia jamais sentida! Lá do alto, a Vila de Nova Sintra dá-nos uma visão feérica! Cortada de alto a baixo pela larga avenida toda iluminada, parece-nos uma carreira de S.Tiago em toda a sua plenitude. As casas da Vila até Lêm assemelham-se a estrelas cintilantes envolvidas por uma auréola de nevoeiro.
Tem-se a impressão de um oásis todo cheio de luz, suspenso no ar. O contraste com as zonas não iluminadas, mormente quando há nevoeiro envolvendo a Vila, é maravilhoso. Não, o” chauffeur” tem de ser convidado a descer devagar para a nossa retina fixar de uma vez para sempre este espectáculo surpreendente que aliás torna-se inesquecível.
O certo é que o viajante regressa à Vila não cansado mas sim com vontade de repetir o mesmo passeio.

Continuaríamos a viajar com Hermano de Pina mas falaremos devagar noutra ocasião da descida ao Vinagre, bela localidade, afamada pela sua água, rica em flúor e em bicarbonato, da gente “morabi”da ilha Brava e da variedade de aves multicolores, salientando o famoso passarinho de pena azul de rara e exótica beleza.

Na ilha de meus pais / vais contemplar o vermelho vivo/ dos cardeais floridos/ o brilho matizado das rosas perfumadas/ o azul musical das penas/ dos exóticos de pássaros multicolores// Vais sentir a transparente frescura/ do ar sereno/ nas madrugadas de luar// Vais amar e voltar sempre/ à ilha de meus pais.

O leitor fica convidado a visitar a ilha Brava, uma das mais belas do Arquipélago de Cabo Verde e, porque não, a investir para o progresso desta ilha esquecida e desconhecida por muitos cabo-verdianos devido à irregularidade de transportes e dificuldade de se construir um aeródromo que resolveria a maior parte dos seus problemas. Acreditem que vale a pena e, agora que o catamarã “Crioula” passará a fazer carreira regular para a ilha, a Brava poderá ser destino obrigatório para todos que amam viajar e conhecer novas atmosferas.

Carlota de Barros
Lisboa, 24 de Janeiro de 2011